terça-feira, 26 de março de 2013

Aguardando, ansioso, meu Paulo Leminski




os dentes afiados da vida
preferem a carne
na mais tenra infância
quando
as mordidas doem mais
e deixam cicatrizes indeléveis
quando
o sabor da carne
ainda não foi estragado
pela salmoura do dia a dia
é quando
ainda se chora
é quando
ainda se revolta
é quando
ainda

________________


tem quem se proteja
por trás
de uma barragem
de bons dias
boas tardes
boas noites
assim não tendo
que ver o que está passando



18 comentários:

  1. Leminskaia

    Joguei futebol por cinco anos
    com jeito de poeta, quebrando
    pernas como quem inventa rimas
    bebendo cachaça como quem
    traça as primas

    Mais dez anos de poesia na escola
    rabiscando portas de banheiro
    com uma das mais belas
    palavras de nossa civilização: dinheiro
    quem dá ao pobre fica sem nada
    e faz dos versos o punho e a porrada

    Tenho a oferecer a prática de três anos
    do mais eficiente desemprego
    que no mundo há: polindo silêncios e deles
    extraindo prata de frases salientes
    seduções mordidas entre os dentes

    Mas o melhor tempo é o tempo morto
    que se apaga no registro da carteira
    na pretensão do passaporte para cruzar
    a augusta rua dos puteiros, na ilusão
    do mestrado, túmulo das realizações supremas
    - das bobagens, prefira as extremas

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    1. Belo exercício leminskiano! (Já sei a sua resposta; vamos conferir...)

      Estou indo de volta, ao encontro de meus poetas nacionais preferidos da juventude. Li Leminski e fiquei com a alma lavada durante meses. Sua poesia tem essa qualidade suprema: é despojada, não se importa bulhufas com qualquer seriedade e pretensão canônica, e por isso é tão fresca, aventureira, elétrica, feliz, direta. Foi inteligente o suficiente para saber que a poesia, antes de todas as outras virtuosidades literárias, deve ser absolutamente legível, nada de metástases metafóricas nerudianas, nada da masturbação de inúteis filhos criados com avó dos concretistas. Poesia como quem compõe um espontâneo e genial grito de guerra urbano. E enquanto compositor, Leminski nunca se prestou à empulhação grandiloquente de toms jobins e vinícios (ah, credo!).

      Meu outro grande poeta nacional tem bem menos momentos de brilhante leveza: o Thiago de Mello.

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    2. Eu culpo o Leminski por ter engendrado essa trupe de semi-vagabundos letrados, de cinquentões com pochete preta na cintura, brilho de gordura de galinha frita no bigode, que arrastam mesas de botequim pelos centros urbanos brasileiros, sentam-se sem ser convidados do lado da sua esposa, e, com manuscritos quentinhos da xerox da esquina, martirizam os ouvidos com versos que rimam Stalin com Darling.

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    3. Não consegui adivinhar qual seria minha resposta.

      Leminski é um pouco interessante. Vamos à conjunção adversativa: mas...

      1) Sua poesia surge na ressaca de sua prosa presunçosa, que arrebanhou 7 leitores acadêmicos a jurar pelos cantos das salas que Catatau é o melhor romance pósmoderno já escrito nesse mundo semiótico, etc.;

      2) Sua poesia utiliza-se com mais refinamento dos arrebatamentos beatniks juvenis, e é tão aventureira, etc. quanto inconsistente, muitas vezes, sem conseguir se descolar dos trocadilhos à Oswald de Andrade;

      3) Sim, o Luiz tem razão; por causa desse filho de uma égua tá cheio de cara chato gordo ensebado querendo comer tua mulher com essas delongas de poesia fresca e e despojada.

      Para o Luiz: como você soube que eu sou cinquentão?

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    4. Vou ser sincero: não conheço quase nada da vida de Leminski. Mas algo que me provocou uma espécie de constipação nos meus 20 anos foi ler na contracapa de um livro dele seu curriculum vitae, em que uma das partes mais importantes era sua informação de que "era faixa preta de judô", ou karatê, não me recordo bem. Achei isso o máximo, naquela época em que o mercado editorial brasileiro tentava ensejar um cenário de poetas nacionais beatniks, na cola do sucesso de vendas da tradução de On the road. Sei que me agrada muito ler Leminski, sem compromissos, muitas vezes com sorriso no rosto. Pedi esse e um lançamento de ensaios do Milan Kundera, para a Cia das Letras.

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    5. Leminski era um bêbado, morreu disso (e algo jovem), e, não à tóa, traduziu Bukowski. Escreveu também uma biografia de Trotski combinando-o com uma leitura de Os Irmãos Karamazov; quando li achei genial, mas isso era o efeito buscado - parecer genial quando era tão somente esquemático.

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  2. Hahaha
    Marcos, eu mirava outro cinquentão!
    Vou arriscar aqui um sketch de personalidade. Se um dia você chegou a representar o papel de poeta vendilhão no templo, se arrependeu e guarda essa lembrança com algum embaraço.



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    1. Erraste feio. Nunca vendi; como má puta, dei de graça, e só durante a juventude, entre os 14 e os 25 anos. Depois, achava que ainda dava pra trocar poema por corpo feminino, e só consegui afugentar alguns; então desisti - de tentar comer alguém com poesia - e agora, quando por acaso alguém vê em mim uma possibilidade de escritura poética corto logo dizendo - trocando numa mentira por outra - que sou advogado. Posso assegurar: advogados comem mais mulheres que poetas.

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    2. hauahuahauha o marcos anda inspirado
      tá no porto do vinho?

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    3. Ramiro Conceição29 de março de 2013 12:06

      É, Marcos, você e eu não representamos qualquer perigo, pois somos inocentes putas velhas… Por outro lado, a questão crucial à humanidade, na realidade, é o conjunto, que sempre se renova, das honradas senhoras eruditas - e novas!

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  3. É bom saber
    que o poeta
    foi a causa
    dum bando de cornudos
    por essas plagas e pregas.
    É… afinal… a poesia come.

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    1. Prova dos nove.
      Maldito Leminski...

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    2. Ramiro Conceição28 de março de 2013 05:59

      Pois é:
      a prova dos nove não existe.
      Bendito Leminski...

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    3. Ramiro Conceição29 de março de 2013 11:42

      http://www.uff.br/dalicenca/images/stories/caderno/volume1/a_prova_dos_nove.pdf

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  4. Leminski é um medíocre, poeta incompetente sem nenhum talento cujo estilo demasiadamente descolado foi visto como marca de inovação, desprendimento, liberdade; quando, na verdade, era apenas marca de falta de domínio do fazer poético, estultice ou arrogância mesmo, no sentido de que ele se achava tão excelente que julgava que tudo que fizesse seria de qualidade.

    Qualquer poeta rude consegue se passar por Leminski de forma bem-sucedida e enganar a muitos. Basta escrever em versos curtos, livres, de sonoridade irritante e falando de banalidades modernas.

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  5. CAVALOS
    by Ramiro Conceição


    Quando tudo passar
    que fique, de alguma
    forma, a primeira vez
    que vi… o teu olhar,
    e o amar dos cavalos
    na manhã… sublime.

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    1. Ramiro Conceição31 de março de 2013 14:09

      AMÁLGAMA
      by Ramiro Conceição
      .
      .
      É…Não se faz um poema único,
      mas milhares ou talvez milhões.
      Junto ao simples vem o múltiplo,
      cada verso sempre são muitos:
      não há uma única palavra,
      porém um conjunto delas
      criado em muitas línguas;
      algumas mortas, outras vivas
      e muitas sequer ainda escritas.
      Sim, não há um único ritmo,
      mas o aprender do dançar em vários.
      Não existe um único poeta ou artista,
      mas diversos escondidos no silêncio.
      Não há um único beijo, porém outros
      que já foram feitos, desfeitos e muitos
      outros, novos, que serão descobertos.
      Não há um único homem ou mulher,
      uma única cultura ou um único amor,
      mas na verdade, que nunca será única,
      existem, sim, as vivas multiplicidades.
      Conviver com o múltiplo talvez seja
      a única maneira de viver o instante:
      esse amálgama, confuso, de almas.


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