segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Dois Textos Alheios Roubados de Outros Blogs


É a primeira vez que uso esse procedimento aqui no blog, o de colocar textos de autores que assinam em outros blogs. Faço-o pela qualidade dos textos que se seguem, ambos tendo me emocionado. O primeiro é da lavra do Marcos Nunes, capturado de seu blog. O segundo é um comentário postado no blog do Cassionei Petry, cuja autoria é do João Antonio Guerra.


"Dizedor de texto": quase um obituário, por Marcos Nunes

Conheci Walmor Chagas quando ele se aventurou a criar e dirigir um teatro na Tijuca, o Ziembinski. Pessoalmente, é claro; artisticamente ele era um nome a considerar o teatro, e me recordo de ter lido que um de seus êxitos fora com a montagem de um texto de Samuel Beckett, Esperando Godot, ao lado da então esposa, Cacilda Becker (a foto que ilustra é dos dois juntos). Fazia televisão também, mas televisão, bem... como disse Antunes Filho, é bom fazer para comprar o eletrodoméstico, a casa... artisticamente é quase uma nulidade, exceções de praxe que, ora vejam, só confirma a regra: tevê é um lixo.

Pois bem, eu queria falar mesmo é de quando travei algum contato com o ator, que tinha também sido reconhecido por outro, inglês, como uma das melhores vozes shakespearianas que ele já tinha ouvido.

Na Tijuca, onde morava e praticamente ainda moro (no limite hoje: em Vila Isabel), pouco havia e ainda pouco há de “comércio cultural”. Os cinemas de rua viraram cinemas de shopping; as casas noturnas são restritas a bares com a inextinguível “música ao vivo”, igual em todo lugar, e teatros há apenas dois: o do SESC e o ainda sobrevivente Ziembinski, incorporado à rede municipal de teatros. Havia outro, o Calwell, que sobreviveu pouco tempo, instalado no lugar de um antigo cinema. Nem sei o que há por ali hoje; provavelmente uma igreja, ou uma drogaria... Livrarias? Umas poucas; fora de shoppings, vivem às moscas, ou estão cheias de estudantes a comprar livros didáticos.

O Ziembinski fora aberto com êxito, com uma peça de teatro em que o principal ator era o próprio Walmor. Não me lembro o nome do espetáculo; talvez O rei do ferro-velho. Pouco depois, um informe do teatro teve um texto do ator sob o título A Tijuca entendeu. Me lembro precisamente disso, porque achei de um otimismo apressado, o que, infelizmente, se confirmou. O bairro, na Zona Norte, era, e ainda é, uma passagem de nível: de pobre suburbano (morador de Bangu, Deodoro, Madureira e afins) se vai à Tijuca, com uma ligeira ascensão social. Almejava-se, na época, a Zona Sul: ao menos Botafogo, se não o Leblon e Ipanema. Hoje, o objetivo é a Barra, o Recreio... Os tempos mudam; as pessoas, nem tanto. Estranho como Walmor, à época, parecia um otimista. Penso que, talvez, a má experiência o desgastou e amargurou. Não é impossível, mas não é certo, daí que não o afirmo.

Bem, apesar de tudo isso, ainda assim, nos primeiros tempos, fui um frequentador do teatro, onde também ocorriam shows (num deles, a filha de Walmor, Clara Becker, arriscou um repertório de bossa nova), e animadas conversas no pequeno bar que ficava a um lance de escadas acima da sala de espetáculos; um bar até charmoso, com uns azulejos simpáticos que representavam, se não me engano (e me engano muito facilmente) uma paisagem ou seres marinhos.

Walmor costumava frequentar o bar e conversar com as pessoas. Na cara de pau de minha (ainda?) juventude, pus na mão dele uma pecinha de teatro que escrevera, sobre uma relação sadomasoquista entre uma psicanalista e um paciente. A peça, é claro, era muito ruim, mas ele leu, disse que gostou, passou para alguns atores que por lá ensaiavam e faziam cursos; um delas, uma jovem, achou maravilhoso e estava louca para montar a peça; louca mesmo – sorte que não conseguiu o que pretendia.

Apesar de conversar com as pessoas e ser, de regra, simpático; Walmor era um tanto reticente. Sua simpatia era, pela natureza dele mesmo, algo forçada, necessária, talvez até para ele mesmo: uma tentativa de combater sua misantropia. Digo isso hoje; na época, tinha-o apenas por tímido e cuidadoso com novas relações.

Uma vez ele se declarou não propriamente um ator, mas um “dizedor de texto”. Ator, para ele, era o seu, digamos, mentor, o cara que lhe dera o próprio nome do teatro que criara: Ziembinski. E poucos mais. Não sei o quanto havia de falsa modéstia, ou de charme autoderrisório. Talvez nada; para confirmar ou não, falta-me o testemunho essencial: o dele.

O teatro, por fim, foi um legado de Walmor à cidade, um legado que a Tijuca não incorporou, pois seus habitantes, quando querem informação, cultura ou meramente se divertir, vão à Zona Sul, à Barra, ou mesmo à Lapa: só não querem ficar na região.

Vi um filme recentemente, Cara e Coroa, em que Walmor faz o papel de um general aposentado, ainda que linha dura, mas tolerante com as aventuras de sua neta em meio a uma esquerda mais propriamente festiva, e envolvida, vejam só, com teatro. Fez o papel sobriamente, disse bem suas falas, manteve o corpo com a rigidez própria de um velho ranzinza. O primeiro, é claro, foi São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person, que vi em um cineclube suburbano, ao lado de umas 8 pessoas. Este filme, de 1965, é um dos mais importantes feitos no Brasil, em um momento crucial: o do progresso brasileiro, da industrialização forçada e em meio aos “jeitinhos” de sempre.

Posteriormente, li uma entrevista dele em que declarava sua indisposição com a vida (até mesmo por questões físicas); ficava nas entrelinhas que ele poderia por fim àquilo tudo, como de fato o fez.

Ficou para mim a lembrança do ator que, depois de seu afastamento do Ziembinski, e do meu próprio afastamento das lides teatrais (alguma autocrítica eu teria que ter), passei a acompanhar mais em seus trabalhos no teatro, alguns poucos no cinema. Televisão ele fez muito, mas eu, notório, não gosto de televisão.

“Dizedor de texto”: assim eu prefiro, na verdade, todos os atores. Detesto histrionismo, excessos, gritarias, movimentos corporais dignos de contorcionistas. Em arte, sou filiado a um realismo afim ao distanciamento crítico, sem busca de empatias nem condescendências com o gosto do público. Não vou ao teatro para ver atores, mas o trabalho global de uma companhia sobre um texto, que pode ser clássico, pode ser contemporâneo, só não pode ser ruim ou ter medo de dizer coisas, se comprometer com ideias e oferecer visões de mundo.

Pois então é isso; não quis escrever um texto sobre toda a carreira de Walmor Chagas; só um texto sobre o Walmor que conheci e com quem troquei umas poucas palavras. Afinal, estivemos juntos em um tempo e lugar determinado, e deixamos coisas por lá, por aqui. Não mais que isso.

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Um comentário de João Antonio Guerra:

Eu estagio na Educação Especial, turno noturno, ou seja, turno do PEJA - Projeto de Ensino de Jovens e Adultos. Em teoria, ajudo um só aluno (Rafael, menino queridíssimo, que tem Asperger); na prática, sou um segundo professor em sala, porque seria cruel negar ajuda ao resto da turma.

Fiz fama nessa escola porque, ela fica no caminho casa-faculdade, emendo a faculdade no trabalho, chego cedo e fico lendo na escadaria. Essas minhas horações chamaram a atenção da responsável pela sala de leitura, e fui perguntado se poderia ler para as turmas. Disse sim e lá estava eu lendo Mia Couto para quarenta pessoas.

Ficaram maravilhados, e não me foi uma surpresa: são as pessoas mais incríveis que já vi na vida. Pensam os professores que estão ali para conquistarem marromenos um diploma, uma grana a mais; uma aluna octagenária, no conselho de classe, chutou essa palhaçada pra longe com uma frase: "Me virei até aqui"

Eles só querem ler.

Leio todas as semanas para eles, quando sobem para a sala de leitura. Li Rosa (foi um chororô gostoso quando li A menina de lá), li a passagem de Polifemo da Odisseia, li A autoestrada do sul do Cortázar, li Manoel de Barros, fiz eles quebrarem a cabeça com As ruínas circulares do Borges (e deu muito certo)... Meu 2012 foi inteiro assim.

Pouco antes deles entrarem de férias, aconteceu uma coisa que me fez lembrar do Charlles Campos. Um aluno me cumprimentou nas escadas, perguntou o que eu lia - Enquanto agonizo, do Faulkner. Ele achou o nome forte e quis saber do autor. Esse aluno é mecânico, um homem enorme em seus trintanos; e como chorou quando eu disse que Faulkner escreveu aquele romance em cima das máquinas de escavação.

14 comentários:

  1. Agradeço pela menção, que me fez reler o texto e corrigir uns dois erros que, de cara, encontrei lá. Nem penso em corrigir outros porventura mantidos...

    Uma vez conversava com um professor de literatura que achava fácil seduzir pessoas em direção aos livros, justo pelas razões que estão no texto do Guerra: ora, a literatura nada mais é do que a vida pensada, recontada de maneira inteligente, sutil, mais interessante do que a vida mesmo. Quem não gostaria disso?

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    1. João Antonio Guerra12 de fevereiro de 2013 13:29

      No Nobel, Faulkner falou que só sobre o humano em conflito consigo mesmo é que vale a pena escrever. Quem gosta disso? Quem gosta de engolir a angústia que há em alguns livros? Não enxergo na leitura o gostar acima do necessitar -- uma necessidade doente que fracassa esplendidamente em se curar. Talvez por isso eu tenha escolhido para meus alunos A menina de lá, mas não Nenhum, nenhuma; Polifemo ao invés de Argo; talvez por isso eu tenha falado sobre Faulkner, mas os poupei da leitura de uma linha sequer dele.

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  2. Charlles, você é muito bom nas resenhas. Mas eu as leio por alto, viu, pois sou leitor de ficção bem meia-boca. E não li 1/97 avos do que você lê (eventualmente me atrevo a discutir mesmo assim alguma coisa).

    Você é excelente quando se atreve a escrever algo mais cotidiano, que eu adoro. Parece sem coragem, ou se sente persona BBB, quando o faz. Mas tem ritmos interessantíssimos (para mim). Rola inveja total, eu queria ter feito assim um dia. Mas o que te permite isso é a ficção. Eu não tenho o mesmo talento de linkar as coisas.

    Você, Charlles, jamais escreveria linkar coisas a não ser que fosse um link de fato. É seguramente avesso a neologismos, embora possa usá-los para esculhambá-los. Eu vivo nas minhas orações de 16 palavras e cinco linhas por parágrafo. Isso é horrível. Mas funciona e eu nunca quis ser escritor. Só invejo quem o faz.

    Porque o "manuel" das redações importantes diz que frases curtas na ordem direta funcionam. Igualmente para parágrafos curtos. E eu decidi não contestá-los (bata em mim, mas com jeitinho, que até que eu gosto). O Marcos Nunes não seria tão delicadinho...

    Eu não sou Proust, nem Saramago. Logo, recolho-me à insignificância das coisas treinadas, testadas, auditadas, verificadas e insuportavelmente seguras.

    Eu hoje não consigo mais escrever uma oração com mais de 16 palavras. Sério. Nem conto mais. Já sai pronto. Ressalva feita ao Ibama - Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. Se tem Ibama na minha frase, eu largo frouxo.

    O Marcos Nunes, que é cortante, é feladaputa de bom. Quando eu crescer, mas eu já cresci, logo é irremediável, queria ser como ele. Até para poder brigar com o Charlles e (tentar) devastá-lo.

    Vida longa aos dois.

    Fábio Carvalho

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  3. Houve, há e haverá seres no seio da nossa cultura que devem ser homenageados: Ziembinski, Walmor, Cacilda, Millôr, Flávio Ragel, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran, Dias Gomes, Nelson (e muitos outros já mortos); Zé Celso, Fernanda, Juca de Oliveira, Fagundes, Aracy Balabanian, Matheus Nachtergaele, Marco Nanini, Lima Duarte (e muitos outros ainda vivos).

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    1. Iiiiiii!....
      Esqueci-me de dois personagens:
      o Antunes Filho (ainda vivo); e o Gerald Thomas (um quase-morto-vivo...).

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    2. Parafraseando o Thomas:
      dizem que os pigmeus são capazes de representar, com arte, o nascimento ou a morte de um elefante; mas sem texto ou sem qualquer palco... E aí, meu amigo Charlles, vem aquela nossa velha discussão sobre a importância cultural de Tolstói e um sábio aborígene da Tasmânia. Lembra...

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    3. Metendo o nariz, perdão: lembrei de Bellow: "Onde está o Tolstói dos zulus?". Algo a ver com a dita discussão?

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    4. Caro João Guerra,
      Essa discussão, entre Tolstói e um aborígene da Tasmânia, se deu, se não me falha a memória, aqui (num antigo post do Charlles) ou no blog do Milton Ribeiro. Por outro lado, a afirmação, que os pigmeus são capazes de representar com arte, sem qualquer texto, por exemplo, a morte de um elefante, encontra-se no manifesto “Independência ou a minha morte súbita” de Gerald Thomas e que foi elaborado em 07.09.2009. Tal texto encontra-se no blog do Thomas (tal leitura vale a pena porque trata, essencialmente, do sentido da profissão do artista diante desse mundo que praticamente conspira à continuidade do status quo).
      Como havia citado alguns importantes diretores do teatro brasileiro (sendo que entre eles alguns foram, ou alguns ainda são, também autores e atores) - Ziembinski, Flávio Ragel, Gianfrancesco Guarnieri, Zé Celso, Juca Oliveira, Antunes Filho e Gerald Thomas – fiz uma livre associação com o manifesto do último supracitado e, consequentemente, lembrei-me da discussão que tive com o Charlles... Só foi isso, nada mais... Não tive intenção de afirmar qualquer coisa contundente.

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    5. Complementando o comentário anterior: ando a ler vasta literatura sobre educação, pois afinal sou professor do Ifes (Instituto Federal do ES). Entre os muitos autores, Boaventura tem-se ressaltado; dele, estou a ler a “Epistemologia do Sul” que, efetivamente, debate a necessidade de uma nova visão à Educação, porém os novos paradigmas devem ser essencialmente gerados aqui, entre nós, os vencidos; ou seja, é uma reavaliação ética, estética e política das culturas ditas do “Sul”.

      Boaventura cria até uma nova abordagem epistemológica, isto é: “A Ecologia dos Saberes”. Confesso que estou a ler com muito cuidado, pois noto em Boaventura e seus colaboradores uma adjetivação excessiva em seu conceitos; e por que não dizer, talvez, a existência dum culto vazio à forma e, com isso, um empobrecimento do conteúdo teórico que tais autores tentam construir como hegemônicos ao complexo processo de educação à emancipação das gerações futuras.

      Mas estou somente nos primeiros passos…

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    6. Faltou um detalhe no comentário: há um mês, aproximadamente, descobri esse verdadeiro tesouro à reflexão:

      Freinet e Freire – Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP www.teses.usp.br/teses/.../48/.../FLAVIO_BOLEIZ_JUNIOR.pdf

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  4. Charlles meu caro, como vais?
    Obrigado pela correção, mas na verdade há uma quarta tradução, de um português de Portugal chamado João Palma-Ferreira. Aliás neste 2013 haverá uma quinta tradução, a ser publicada pela portuguesa Relógio d'água, assinada por um sujeito chamado Jorge Vaz de Carvalho.
    Ainda estou a te dever o Danúbio. Me aguarde.
    Abraços fortes
    Aguinaldo

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    1. Essa eu não sabia, Aguinaldo. 4 traduções de Ulisses para o português. Vou pesquisar mais sobre isso. Obrigado pela re-correção.
      Abraços.

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  5. Ei, Charlles.
    Viu lá no Grijo que ele ta se aposentando?

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  6. João Antonio Guerra12 de fevereiro de 2013 13:32

    Obrigado pelo roubo, Charlles.

    Ler Faulkner sem lembrar de você ficou impossível depois que li o teu "William Faulkner no Balcão". É como se ele fosse sua propriedade, e eu é que estivesse roubando-o de ti.

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