quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dois Virgílios


O que é de se espantar na iniciativa de dois professores que nunca pegaram em câmeras digitais para realizarem um documentário com pretensões denunciatórias sobre o absurdo das campanhas às eleições municipais é ninguém nunca ter feito isso antes. Esses dois professores, que certo dia de conversa amena de fim de tarde tiveram o insight de se transverterem em Michael Moore, com tudo de amadorismo e inépcia formal e despudor eficiente que Moore tinha em seus primeiros filmes, resolveram percorrer em direção contrária à que a crítica ortodoxa costuma apontar sobre o azar de vivermos em um país tão desprovido de temas capitais ao intelecto. Contrariando de forma genialmente espontânea os que afirmam que o Brasil não tem subsídio espiritual suficiente para produzir um Günter Grass, já que a história reservou o presente de grego de uma conformada alegria genética ao povo nascido neste país, esses dois professores, durante dois meses, cada um munido de uma câmera caseira Sony escondida em mochilas com o zíperes estudadamente semi-abertos, percorreram comícios, reuniões de comitê, fizeram tocaia na frente de casas de candidatos com o propósito de registrarem movimentos suspeitos, participaram audaciosamente das filas de compra de votos, em que carros param diante de bombas de gasolina para serem adesivados com as fotos do candidato e terem os tanques cheios e o adendo de duzentos reais para cada um. E fizeram isso com o humor idiossincrático de um Grass nacional, não que Grass tenha passado pela cabeça deles como modelo, mas que a mim, ao me apresentarem algumas das centenas de horas ainda não editadas do que será seu original documentário, ficou nítido que eles também tem um personagem anão que se recusa a crescer, sendo este o infantilizado, leviano e conivente com o atraso povo brasileiro.

Eu compartilho com esses dois propensos documentaristas a convicção de que quem quer ficar a par da nefasta realidade brasileira deve procurá-la no micro-cosmo representativo das cidades do interior. Numa cidade interiorana como a que nós três moramos, de 25 mil habitantes, vive-se à exaustão a congelada efervescência da alienação dos que pagam os impostos mais altos do mundo sem se darem por isso, e que acreditam que o dinheiro que abastece uma escumalha de vereadores ineptos e deliberadamente corruptos, e um prefeito líder da quadrilha, frutifique em uma árvore celestial ou nasce de qualquer outra fonte absolutamente externa às suas rasas percepções cotidianas. O surrealismo de nossa realidade sob a redoma foi generosa em mostrar esses retratos e anedotas funestas aos dois documentaristas, como se as suas Sonys tivessem o efeito de Midas em, para onde apontavam, transformavam o prosaísmo em um estudo de campo aurífero valioso sobre o atraso. Há cenas de comoção, como a de um esposo de uma candidata a vereadora que se dirige a eles, sem suspeitar que das mochilas nas costas dos dois lhe observam lentes atentas, e lhes pede a misericórdia de votarem na sua companheira, pois, ele explica, assim ela poderá ficar na propriedade rural deles para fazer almoço para ele e os peões, durante quatro anos garantidos, aliviando seu fardo. Essas cenas estão ali gravadas com uma precisão cristalina sugerindo que as confluências da sorte estavam esperando algo assim acontecer para ser flagrado e utilizado com fins didáticos para a posteridade, ainda mais se considerarmos a radiante conclusão para esse pobre labutador do campo que teve sua esposa eleita e o almoço dos peões estar confortavelmente garantido. Há o registro do tumulto morno e estupidificado de um comício, em que lá em cima no palco está uma vizinha gorda que mal escreve seu próprio nome, mas que diante o microfone brada que se candidatou  por querer ajudar o povo "sofrido e explorado" da sua cidade, embora não pareça claro como ela acha de realizar isso, com quais meios, com quais recursos, sendo que sua encarnação unicamente conhecida na comunidade e resumo de seus talentos é a predisposição para intrigas, a malemolência e horas diante as telenovelas noturnas. Há uma série de cenas perigosas, como as de um candidato à reeleição a vereador (nas eleições passadas foi o mais bem votado), chamado, vamos dizer, Serginho da Amora, que todos os dias de campanha se senta à mesa de um bar de periferia e vai distribuindo às fartas para a procissão de jovens que lhe pede, dez, vinte, cinquenta reais, ao que são destinados à compra imediata de pedras de crack. (Teve precisos 498 votos e por pouco não reentrou com glória na Câmara Municipal.)

O mais reveladoramente sintomático sobre o perfil do eleitor é o seguimento em que eles acompanham quase passo a passo a campanha daquele candidato que teve mais votos nesse pleito, o, vamos dizer, Almir Faiçal (os pseudônimos aqui são homófonos). Almir Faiçal, pelos bons últimos oito anos, foi um funcionário comissionado que controlava todo o dinheiro que entrava e saía da câmara municipal. É uma personalidade quase inventada em sua total irrepresentabilidade e insossidez. Tem o cabelo índio profuso espetado, e o rosto redondo que nunca jamais foi visto emitindo um sorriso, nem um muxoxo, nem um ar de zanga, nem qualquer vestígio de vida ou de fonetização: quase caberia no conceito de homens que nunca bocejam, de Jack Kerouac, se não fosse completamente desprovido de interesse. A única notícia aquecida que se tem dele é que quando se casou, sua esposa simetricamente compatível a ele gastou dez mil reais em um bifê de frutos do mar que ficou intocado pelo público famélico que mal viu a hora de voltar para casa e providenciar um urgente arroz com galinha caipira. Por ser sobrinho de um importante comerciante local, Faiçal (não o trato nem pelo primeiro nome inventado para evitar qualquer nível de intimidade) teve nas mãos uma verba de campanha de 300 mil reais, que gastou em banners, faixas, adesivação de carros (os documentaristas receberam 200 reais por uma semana, devidamente documentado), tristes cabos eleitorais compostos por velhos aposentados e meninas tatuadas martirizando um chiclete eterno, bandeiras, etc. Faiçal adotou o costume agressivo de bater à porta de casas que tinham propaganda de outros candidatos e oferecer uma quantia indulgente que variava de 600 a dois mil reais para que seu proprietário a trocasse pelas placas com seu nome. Os dois documentaristas ainda não me mostraram as cenas, mas disseram que a nona sinfonia de seu filme será o glamour da contagem de votos em que Faiçal, incrivelmente, chora, nos braços de sua esposa, e de frente para uma multidão extática de eleitores, quando os radialistas do forum eleitoral noticiam a definição de seu nome como em primeiríssimo lugar. Os dois querem interpolar animações explicativas em que dizem: 300 mil reais gastos para se eleger a um cargo de salário de seis mil reais por mês, que durará 4 anos, somando um total de ganhos futuros completos de precisos 288 mil reais. Ficarão faltando para o estoico e abnegado vereador 12 mil reais para pagar pelo seu sonho radical em diminuir as mazelas de sua tão querida cidade.

O filme deverá se completar com um sem número de cenas satíricas a serem definidas. Depoimentos de chefes de escritórios estaduais que revelam que determinados candidatos eleitos haviam se apresentados, antes das eleições, a suas repartições, com o ofício de deputados e ou secretários de alto escalão os nomeando como supervisores ou assistentes, mas que esses pré-candidatos deixavam bem claro que não iriam trabalhar nenhum dia, mas só receberem os salários no final do mês. Bobos notórios do folclore da cidade subindo ao palanque e tartamudeando em adoração a determinado candidato; as tantas apresentações de candidatos espúrios que são comedias involuntárias, como uma que se denomina a força e a independência da mulher, mas que seu nome de campanha é Sônia do Moacyr; ou o vereador inelegível por ser acusado de homicídio e que coloca como substituto seu filho bronco que não consegue pronunciar uma palavra diante a plebe, e que arranja de sair desse encalço dizendo se querem votar em mim que votem, se não, vão todos para a puta que pariu, e dá as costas. Uma série de entrevistas de populares que respondem à pergunta o que fariam se fossem vereadores, cujo mote em variadas formas de imaginar o paraíso que isso os conduziriam não foge do comum de afirmarem alegremente que roubariam o máximo para garantirem seus restantes de vidas. Cenas de motoqueiros dando racha nas praças durante os comícios, de passeatas da vitória, de fogos de artifício lançados por toda uma noite sem a mínima consideração ao direito ao silêncio.

O único problema nascido nesse projeto foi o de esses dois professores se saberem queimados demais como dissidentes cultos da boçalidade reinante para poderem passar despercebidos nas regiões desses abutres desconfiados. Daí que contrataram um eletricista boa praça, baixinho, barrigudo e com uma inclinação incurável e um estranha espécie de geriatrofilia ostensiva, com ar de Sancho Pança e que se revelou uma víbora mais ácida ainda que seus contratantes na arte do sarcasmo, e que ganhou a cena em diversos momentos das filmagens. Mas os dois produtores/diretores me disseram que, com o passar dos dias da campanha, a certeza de impunidade era tamanha que ninguém se importava se haviam intelectuais com certo grau de argúcia entre eles, e eles puderam trabalhar livremente, como se estivessemos naquele zoológico argentino em que o público fica em contato direto com os tigres e leões, me disse, literalmente, um deles. Eles não sabem como vão editar o filme, como vão lançá-lo, o que terão que enfrentar de ameaças de morte e processos legais. Possuem uma distante intuição de que trabalharão para que o produto final esteja tão bem para ser aceito pelo FICA, o festival internacional de cinema que acontece na Cidade de Goiás. Há coronéis demais e juízes demais entre a intenção e o intento, e entre eles costuma-se cair a sombra, com diz T. S. Eliot. Mas que sorriso que começa com gargalhadas e termina com tristes riscos nas bocas os dois apresentam por terem documentado essas amplas zonas dantescas.

14 comentários:

  1. isso tinha q partir de um sul vinte um da vida, o mais distante possível e anonimamente, se é q é possível. mas eu não imagino q consigam viver na mesma cidade dessas cobras todas aí, depois de tudo vir a público.
    que coragem.

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    1. Essa não é nem um décimo da história. Há um vereador combativo por aqui, advogado, grande amigo meu, que lançou jornais, programas de rádio, e uma série de denúncias ao MP contra os crimes administrativos do atual prefeito. Nada das denúncias deram resultado, e ele não foi reeleito.

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    2. Meu amigo vereador NÃO foi reeleito, esteja claro...

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  2. Tinha escrito um comentário maior, mas deu pau no pc, então fica só esse aqui:

    Mas arbo, o Sul 21 só investigaria candidatos do PP, PSDB E DEM, nada de PT, PSOL, PSB... hehehe

    Apesar do porto alegrense classe-média padrão se negar a ver, no interior do RS é exatamente a mesma coisa, bem aquela cena típica de novela das 6 da globo, de coroné e compra de voto, eleições resolvidas na bala (Borges de Medeiros morreu porém sua prática continua viva), mas tchê, isso é coisa de nordestino, imagina se > nossa < gente, de Bianchis e Beckers, de cabelos lisos e olhos claros, seria assim...

    Né?

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    1. Matheus, acho que ainda estamos um tanto distantes do atraso. Mas tudo são sintomas e é bom ter tomado a pirola do Matrix que nos acorda do sono da máquina (era a de cor azul?). Até o sorriso gargulesco da moça do Jornal Hoje é revelador, quando ela anuncia a matéria sobre as famílias ultra-endividadas do Brasil, com suas tevês Leds a 12 prestações e os carros tombados para a direita nas garagens, devido ao peso do carnê do financiamento nos porta-luvas. Hedonismo e frivolidade para nunca enxergar o desastre.

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  3. Azul prosseguia no sono da Matrix, Vermelha ia pra Zion. E, as vezes, penso que certo estava o Cypher.

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  4. Compra de votos existe em qualquer lugar, não apenas no interior, não apenas no Brasil. Nos EUA, um deputado se elege comprando votos e depois vende ops seus para o lobista corporativo que lhe pagar mais. É o que chamam, afinal, de democracia. Funciona desse jeito aí mesmo.

    Então a gente volta à conversa da "conformada alegria genética"... bem, tem um livro dum cara francês, Eric Dardel, que, como bom francês, complica as coisas pra caralho; ele trata da dimensão espacial da existência, esse coisa da paisagem externa como elemento constituinte da paisagem interna. Aquela história do cara que mora em Ribeirão Preto e só vê neve influenciado por suas sartreanas leituras. Viver naqueles países de bosta na Europa implica necessariamente numa introspecção devido ao inverno massacrante, à neve, à chuva, a paisagem cinza e as pessoas a mirar as paredes, trancadas dentro de casa, por aí. Não há acréscimo de dimensão espiritual porra nenhuma, o que há é aquilo que o Eric Dardel tem de sobra: tempo para espalhar tintas e refinar até produzir algo que, se em detalhe interessa, no todo dá vontade de devastar até reduzir ao que realmente importa e ao que ele quis dizr, que é simples, mas não pode ser, porque senão não daria um livro, só um ensaio de umas vinte páginas no máximo.

    Reflito sobre minha própria experiência de ter diante de mim, durante o trabalho, a exposição da Baía de Guanabara, com a Marina da Glória à frente, a passagem dos barquinhos, os aviões do Sabntos Dumont, a água com fosforescências prateadas a refletir o sol, em algum lugar perdido no céu azul. Isso não é genético, é coisa de fora que é recomposto mentalmente e elimina o grau de pretensão diante das coisas, das relações humanas, de tudo o mais. Transforma qualquer um em outra coisa, como os estrangeiros que conheço e moram aqui, a maioria deles vindo um dia remoto lá atrás, de passagem, no tédio das férias, retornaram aos suas terras, trancaram a vida lá e voltaram para cá, rindo de nosso esporte nacional preferido: falar mal de nós mesmos e do país. Sempre lembro do suiço que liquidou a vida toda em seu país e comprou uma pousada em Porto de Galinhas, casou com uma pernambucana e vive aqui há vinte anos, de chinelo e bermuda, a tocar seu pequeno negócio e frequentar o estádio da Ilha do Retiro, onde vai torcer pelo Sport.

    Há aqueles que fazem o caminho inverso e amam a Suécia, por exemplo, e lá pagam, de fato, a maior carga tributária do mundo (o Brasil está, se não me engano, fora dos dez mais). Há revolta contra a própria paisagem. Mas eu não consigo: olho lá pra fora e não vejo a branca e horrenda neve e me sinto como um pinto no lixo. Fazer o que.

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    1. Pelo que sei o Brasil, em carga tributária, está em segundo lugar, perdendo para um desses países escandinavos. Porto de Galinhas é Porto de Galinhas, e é claro que eu preferiria morar lá do que em vários de outros lúdicos lugares do mundo. Mas o metro quadrado deve ser equivalente ao do centro de Londres. Não acredito neste determinismo geográfico, nem em questão dos povos da neve serem tristes devido ao frio, nem em questão dos povos tropicais serem socialmente atrasados por conta do calor. Há predisposições pessoais específicas: eu fico imensamente feliz com a chuva e o frio; Garcia Marquez escolheu morar em Cuba por amar o calor tórrido, assim como Husdie declarou a mesma predileção.

      A questão é pura e simplesmente cultural, ou, mais estritamente, educacional. A questão no Brasil é que não se limita apenas à corrupção do caixa dois e dos dez por cento pela correria do serviço, que, como você diz, acontece em todo o mundo e faz parte de nossa corrupção adânica. A questão é que por aqui se quer roubar 100%; é a ultra-corrupção. No meu município a arrecadação gira em torno dos 3 milhões por mês, mas a cidade sempre viveu à míngua, não tem uma recapeação asfáltica que presta, as pessoas aqui vivem do comércio insosso e do funcionarismo público. É um ótimo lugar para se morar se você tiver um bom emprego, mas a maioria sobrevive de mal a mal. Uns amigos meus entendidos fizeram os cálculos: desses 3 mi, 1 é gasto com a folha de pagamento, meio com outros serviços de luz e água dos prédios, sobrando, pois, 1,5 por mês, que não é revertido para a cidade. Não há promoção de monocultura, como é tradição eleger determinada cidade como "capital da melancia", ou do tomate, ou da uva; todos o agricultores daqui se atolaram no empréstimo de seus campos para a plantação de cana, e daí terra improdutiva a longo prazo, ganhos rápidos e insubstanciais, prejuízo enorme para o ecossistema (o cerrado sofre um avançado processo de desertificação; é um milagre que ainda esteja chovendo por aqui).

      Essa é a diferença: a concepção arraigada de que o serviço público da política é uma carreira infalível para se ficar rico. Todos os prefeitos que passaram por aqui estão podres de rico, assim como vários secretários e vereadores. É a filosofia canhestra do "vamos pegar tudo". E junta-se a isso a máfia demoníaca das igrejas no controle da alienação eterna populacional, e outros fatores.

      Não é fácil manter um panorama desses em muitos países desenvolvidos, Marcos, por mais que os facínoras tentem. Acesse no google "políticos da suécia". Aquilo ali é o limite da democracia que não se entregou à plena prostituição inerente a seu conceito. Foram entrevistar a prefeita de uma cidade da Suécia, para que ela falasse sobre os campos de hélices da energia eólica, e a encontraram no balcão de um mercado, pois sua profissão é a de caixa de mercado. Ser prefeita é uma contribuição consciente à si e à sociedade.

      O que vejo em meu dia a dia é que o Brasil é muito sui generis.

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    2. Carga tributária, na ordem:

      1º) Suécia: 44,08%
      2º) Dinamarca: 44,06%
      3º) Bélgica: 43,8%
      4º) França: 43,15%
      5º) Itália: 43%
      6º) Noruega: 42,8%
      7º) Finlândia: 42,1%
      8º) Áustria: 42%
      9º) Hungria: 38,25%
      10º) Eslovênia: 37,7%
      11º) Luxemburgo: 36,7%
      12º) Alemanha: 36,7%
      13º) Islândia: 36,3%
      14º) Reino Unido: 36%
      15º) Brasil: 35,13%

      Não é que acredite em determinismo geográfico, mas em influência por conta das diferentes perspectivas em que a questão geográfica tem sua contribuição, e contribuição importante.

      Já escrevi antes: a periferia muda depois do centro. Os esforços são concentrados onde há mais densidade, depois se espalham para outros pontos pelo interior, não há processo simultâneo de desenvolvimento social, à parte aqueles que caem de cima para baixo na base do despotismo.

      As pequenas cidades brasileiras só melhorarão o padrão de vida de seus habitantes quando seus destinos deixarem as mãos dos interesses paroquianos e se entrelaçarem com projetos de desenvolvimento comuns às regiões, ao estado e ao país. É uma discussão ampla demais parta o estágio atual, mas um dia podemos superar essas velhas estruturas herdadas de uma sistemática feudal que se mantém até hoje pelos imperativos de uma "elite" patrimonialista e mantenedora dos mais rasos preconceitos contra o povo brasileiro, que bem tá precisado de um simancol para dispensar seus submissos laços com esses predadores primitivos.

      É claro que é tudo muito complexo, não dá para manejar múltiplos fatores em linhas de tronchos comentários, restando a obrigação da síntese e algumas absurdidades decorrentes. É claro que o Brasil é uma coisa, a Argentina outra, a Índia, a Rússia, a Polônia, a França... que tem fronteira com a Espanha, mas com ela só mais se assemelha no território basco. Especificidades sem fim, mas dizer que a mamãezinha Europa está repleta da mais densa espiritualidade enquanto o Brasil se atola na fácil alegria dos prazeres da carne e do sol é também muito, muito, muito impreciso, ainda mais se considerarmos o jeito babaquara como lá eles se rendem como aqui ao subproduto cultural mais genérico, como Michel Teló - aquela coisa do "ai se eu te pego, ai, ai, se eu te pego) é um fenômeno mundial pior que o rap. Bem, sei lá, pior que rap é meio difícil.

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    3. O Brasil na cola de todos esses países de primeiro mundo, que orgulho!

      Mas veja essa matéria, retirada de uma revista conceituada (não a Veja), numa fácil procura no Google:

      "Muitos brasileiros acham que é o nosso, mas a Suécia é o país onde a alíquota máxima do imposto de renda (IR) para pessoa física é a mais alta do mundo. Os suecos que ganham bem entregam para o governo até 58,2% dos seus rendimentos. No Brasil a taxa máxima está em 27,5%, um patamar baixo se comparado ao de nações desenvolvidas e, até mesmo, de países vizinhos como o Chile (45%). Mas isso não quer dizer que nós não temos o direito de reclamar do que pagamos de IR. É que os brasileiros contribuem excessivamente com outros tipos de impostos. "Há três bases para tributação: renda, patrimônio e consumo", afirma o ex-secretário da Receita Federal Everardo Maciel. O que deixamos de pagar sobre nossa renda pagamos sobre nosso patrimônio e, sobretudo, nosso consumo. A maioria das pessoas nem se dá conta disso, mas há impostos nos preços de todos os produtos que são comprados. São impostos cobrados das empresas e embutidos por elas em seus preços.

      Por isso, a carga tributária total do Brasil já está entre as mais altas do mundo, no mesmo patamar de países como Alemanha e Canadá, onde o retorno para a população dos impostos pagos - por meio de investimentos em educação e saúde, por exemplo - é bem maior. Neste mês de abril, os 5 milhões de brasileiros que efetivamente pagam imposto de renda terão uma coisa em comum: ao fazerem seus cálculos, chegarão à conclusão de que estão contribuindo demais para o governo. Também, não é à toa: eles representam apenas 7% da população economicamente ativa do país. E aí não tem segredo: quanto menos pessoas existem para pagar a conta, mais cara ela fica..."

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    4. Vê-se q o problema não é a carga tributária, Charlles, mas a distribuição e localização de sua incidência.
      fico concordando mais com o Marcos. é claro q o Brasil é sui generis. cada país é "sui generis". e cada país tem seu tempo, e o tempo de suas instituições. é preciso saber o qto esses países desenvolvidos "resolveram o problema da corrupção" e o qto foi colocado pra debaixo do tapete - bem entendido: a corrupção pra debaixo do tapete: a corrupção refinada.

      Sim, Matheus, no interior do RS acontece a mesma coisa. Tenho um amigo q trabalha no TRE de uma cidade munúscula (São José do Ouro) q tomou o noticiário nacional por denúncias idênticas.

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    5. O problema é o não retorno da carga tributária da forma como deveria ser.

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    6. ah, sim. esse é o principal. estava falando do problema da carga "em-si".

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