sexta-feira, 27 de julho de 2012

Carbendazim




No blog do casal Nunes vejo um post do Marcos Nunes sobre a já tradicional truculência e violência da policia militar brasileira (trata-se de uma redundância: se é polícia militar, é brasileira). O Nunes ressalta a graça involuntária do jornalismo televisivo com suas chamadas que desvirtuam o léxico de nosso cada vez mais exigente idioma pátrio, ao mostrar a frase de um noticiário: "perseguição ao publicitário morto". Trata-se do já nem tão novo fato da PM de São Paulo que perseguiu e executou um publicitário nas ruas da cidade_ o ocorrido se deu na semana passada, mas novas notícias de assassinatos perpetrados por PMs de vários estados já revestem aquilo com uma névoa de iminente obsolescência. Como a PM podia perseguir um publicitário morto? ironiza Nunes. Nesse absurdo provocado pela desatenção conceitual, nenhum dos policiais é culpado por homicídio algum, já que atirou em um zumbi que, entre uma comida de cérebro e outra, se aventurava em desafiar os oficiais da lei com escapadas automotivas. O redator da frase que aparece como realçador na tela, desconsidera por completo a sequência cronológica dos fatos e transforma a vítima em um anonimato funcional que, a título de facilitar a venda da notícia, o satiriza. Não são muitos os Marcos Nunes que se atentam para tal ignorância, o que a descarta como sátira. A estupidez léxica dos noticiários de tv, que já está aí há décadas, também é um forte traço gêmeo nos textos dos sites de notícia: eu me deparo com matérias quase ilegíveis nos sites da Veja, da IstoÉ, na página de abertura de meu email. Ontem mesmo, sendo teleguiado até uma notícia banal sobre um possível casal gay da tv, vi cinco textos em sites diferentes que simplesmente repetem ipsis litteris a redação do que seria o primeiro deles, entremeado da repetição cacofônica de palavras que revelam claramente que sua digitação foi feita de maneira robótica, insensibilizada e quase sem a mínima dinâmica necessária para se escrever um texto coerente. Em um texto de Renato Janine Ribeiro sobre esse fenômeno da leitura e escrita inconsequente, o filósofo diz que publicou um artigo seu em um site e, em questão de minutos (tempo incompatível para que se pudesse lê-lo na íntegra, Ribeiro afirma), surgiu comentários desabonadores e ofensivos que queriam reafirmar uma opinião que se mostrou a curto prazo não ter nada a ver como o teor do texto. Ribeiro analisa a fluidez dos textos postados em redes sociais e como eles se adequam a uma nova forma de leitura, rápida, fugaz, descomprometida, leviana, auto-motiva. Não é para menos que um zumbi seja alvejado nas ruas de uma grande metrópole e ninguém, afora um baiano exilado no Rio, se atente para o extraordinarismo da coisa.

Mino Carta, em um de seus últimos editorias, também reforça o cordel dos que se escolam estoicamente na denúncia do emburrecimento progressivo da espécie homo tecnologicus. No mais importante concurso gastronômico do mundo, Carta escreve, venceu o prato em cuja porcelana requintada espraia-se uma micro porção de espuma de camarão com a novidade mais desejada entre os gourmet ultra-endinheirados: formigas vivas embebidas em glucose, que se revelaram a mais fina iguaria da temporada. Carta costura sua reflexão com uma análise rápida sobre o fenômeno do esporte nos EUA e no Brasil, o MMA, que renovou o brutalismo pátrio ao estampar na onipresença do espaço cívico, virtual e de todas as plagas propagandísticas a imagem do gladiador Anderson Silva, graças aos geniais retoques plásticos feitos pela rede Globo. A Globo, que até há pouco tempo veiculava matérias condenando a crueldade e a nítida propensão ao assassinato das lutas do MMA, com reportagens destacando o excesso de sangue e os tantos "atletas" que tombaram no "combate", hoje eufemizou com uma camada vibrante de prata televisiva, trilha sonora e efeitos especias humanizadores o antigo Vale-Tudo (já ninguém pode chama-lo assim, com esse pejorativo horroroso e rememorilisticamente contra-produtivo). Tornou-se MMA, adotando a mesma distinção de clube reservado das grandes siglas do esporte, assepsiado e tornado "esporte de família". O objetivo, diz Carta, é logo por esses gladiadores em seus cenários legítimos, grandes coliseus em que a presença do leão não será apenas ilusória. 

Na audiência prestada pelo contraventor Carlinhos Cachoeira ao Ministério Público em Goiânia, nesta semana, o que me chamou atenção não foi o aparato de exímia segurança da polícia federal e os tantos rábulas que aportavam de seus carros de frente as câmeras já temperadas dos jornais, mas uma senhora, moradora de uma casa em frente ao prédio da Justiça Federal, que se posicionou nas portas com um cartazinho escrito à mão e impossível de se ler a não ser a quatro palmos de distância. Entrevistada, revelou o teor do protesto; com uma vozinha sumida mas firme, se mostrou indignada com as tantas corrupções do país, que prendam esse bandido do Cachoeira, confisquem-lhe os bens, e o deixem mofar na cadeia. Em dado momento, aparece de frente a ela a improvável e quase arabesca presença de ninguém menos que o próprio pai do Cacheira, um velho de roupa incompativelmente humilde pela posição subitamente alardeada, e que começa a dizer disparates de foragido de asilo contra a protestante septuagenária. As câmeras, que até então mal escondiam a forte propensão ao bocejo ao dar aqueles segundos protocolares permitidos pela falta de algo adrenergicamente melhor à senhora, sofrem uma reanimação diante à suspeita de furo jornalístico, como se alguma mente baiana exilada nas hordas cariocas lhes carriassem a imagem de um MMA de um casal de velhinhos se atruncando para ver quem dá a chave de perna fatal um no outro. Mas fica visível cedo demais o brochante alquebramento dos dois velhos: uma, passa a reivindicar uma geograficamente anacrônica prisão perpétua ao Cachoeira, outro diz que seu filho é um santo e que Jesus sofreu o mesmo tipo de perseguição. Como as energias ali não conseguiam ir muito além dos próprios casacos com os quais cada qual se abraçava numa atitude próxima ao choro desconsolado, os jornalistas de imediato apontaram as atenções para o verdadeiro centro de interesse daquela trama despirocada toda: a linda mulher do Cachoeira, que, para a sorte de todos, acabava de sair do carro e se dirigia para a sala de audiências. Há 706 mil resultados para Andressa Mendonça no Google, e 281 mil para Andressa Mendonça e Cachoeira (contra 765 mil para a fórmula mais rápida, Andressa e Cachoeira; e espantosos 4 milhões e 420 mil para a concisa procura a esposa do Cachoeira). Conta-se que Cachoeira a pediu em casamento no auditório, em plena seção de coleta de informações sobre suas excitantes aventuras nos anais midiáticos da contravenção. Criou-se um espaço de verdades mitológicas em torno dessa Evita, dessa Diana, dessa mulher forte por detrás de nosso Al Capone, dessa reconfiguração agora com muitos ares de sucesso para sobrepujar de vez a imagem infeliz da fracassada Rosane Collor, para preencher o espaço vital que falta de uma representante arcangélica-libidinal de princesa no monarcômaco nacional.

E assim vai. A mídia cada vez mais leviana e estupidificada, atendendo o feedback de um público que dispensa os poderes morais, críticos e verdadeiramente combativos do que seria uma imprensa verdadeira. As matérias canhestras se propagam em uma velocidade tão descompassada, que seria necessário tempo para reportar uma mísera porcentagem delas. O Jornal Nacional é o tesouro maior para se retirar essas pérolas e moedas de ouro do automatismo descerebrado. Uma vez eles mostraram a denúncia contra um carroceiro que obrigava seu cavalo de pata quebrada a levar uma carroça pesada da cidade até a roça; a polícia apareceu, autuou o homem e libertou o animal do martírio, para logo em seguida o Bonner dizer com a voz carregada de areia dos sonos: "O cavalo foi levado para o Centro de Zoonoses e será sacrificado". Ontem, apareceu no JN essa incrível matéria: os produtores de laranja brasileiros amargam a pior crise da história do setor. Seu principal comprador, o mercado de sucos dos EUA, recusou o lote desse ano por as laranjas brasileiras terem apresentadas nos testes de plataforma traços significativos do fungicida Carbendazim, banido dos EUA e de vários países europeus por causar infertilidade e destruir testículos de animais de laboratório. Em represália, os produtores distribuíram sacos e mais sacos para a população, que ia, embevecida e feliz, apanhar as bombas de testículos condensadas em inocentes frutos do laranjeiro de cima de caminhões. Fez-se litros de sucos concentrados, doados para uma multidão em feérica passeata. Destruiu-se pés de laranja com tratores. No final do vídeo, o presidente do sindicato de produtores reivindica que o governo brasileiro compre as laranjas e as transforme em sucos concentrados, para oferecer no lanche das crianças do ensino público. Laranjas saudáveis e saborosas, afirma o homem. 

A matéria acaba aí, com a cara bovina do William Bonner, acostumado pela natureza do serviço a não prestar a atenção em nada, a não duvidar, a não intermediar nem um gesto instintivo de "mas peraí".

Uma terra de zumbis. Walking Deads.

2 comentários:

  1. De toda essa maçaroca destaco o comentário do Janine Ribeiro, para quem "a fluidez dos textos postados em redes sociais e como eles se adequam a uma nova forma de leitura, rápida, fugaz, descomprometida, leviana...", coisa que todo mundo sabe na Internet mas todos fingem que não sabem, não é verdade ou simplesmente não tão nem aí. Tais características são ressaltadas não só no Brasil mas também no mundo inteiro, com vários professores atentando que a leitura das pessoas está se tornando cada vez mais superficial, de forma que a construção da frase sobre a perseguição ao publicitário morto, na verdade, leva em consideração exatamente esse nível de leitura que "queima etapas", e um cara pode até reclamar comigo, "pô, tá na cara que o título se refere a perseguição policial e um publicitário que acaba morto pela PM, qualé", ous seja, éum tipo de telegrafia para os novos tempos, que também não precinde dos abç, sds, bjs, e outras compressões. Bem, no final das contas a gente é que passa por ranzinza, ultrapassado, dinossáurico, e por aí vai.

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    1. Mesmo no único jornal televisivo bom do país, o da tv Cultura, encontramos tal coisa. Há umas três semanas, um daqueles comentadores com doutorado em alguma faculdade européia e cadeira na USP, falando sobre a precariedade do ensino público, argumentou que os professores deveriam se modernizar e "falar a língua da garotada". Ele diz algo assim: "minha filha está o dia inteiro conectada; facebook, interagindo com amigos. Ela estuda bastante, mas a presença da internet é uma realidade pontual cotidiana. Aí querem que a garotada preste atenção em um professor que só tem um giz e um quadro na mão! O professor deve usar power point, tablet e tudo o mais para falar na mesma língua que essa gurizada toda."

      E não apareceu uma, uma alma antenada para retrucar: "mas excelentíssima excentricidade laureada, lagarto rei do supremo saber, a melhor educação do mundo não é a da Coréia do Sul, e se lembra que lá é giz e quadro negro?, se lembra que há coisa de 3 anos umas forças da natureza andaram derrubando prédios de escolas, e os professores ministraram as aulas em cavernas, sob a luz de velas?, não é lá que a criança estuda em período integral e as mães e as avós (num povo tão longevo) ficam das janelas, sentadas, apreciando e vigiando os rebentos?"

      Uma outra boa, não do mercado de tolices nacional_ já que te interessa tanto a equanimidade de direitos à burrice do estrangeiro_ foi um arroxo dado por uma repórter espanhola ao ator Benício Del Toro, na época do lançamento dos filmes sobre o Che Guevara. A repórter deixou sem fala e num gaguejamento ridículo ao intérprete do Che ao questioná-lo se ele não se ressentia e não tinha vergonha de apresentar um filme destes em Miami, aonde haviam tantos refugiados do governo de repressão feito por Fidel, e que cada um tinha familiares que foram mortos pelo Che. Não sentia o Benífio a afronta enrustida de cantar loas heroicas a um assassino cruel como havia sido o argentino.

      Del Toro perdeu por não falar. Poderia ter falado: "nessa sua ótica, querida, o cinema norte-americano todo deveria ser imediatamente abolido, visto ser ele nada mais que um conjunto glamoroso de apologia de assassinos, facínoras de todo tipo, ladrões e exterminadores, genocidas e estupradores de criança. Deveríamos, em respeito aos sicilianos que lotam os índices populacionais das principais cidades americanas, recolhermos os filmes do Copolla sobre O Poderoso Chefão, que na somatória matou muito mais ainda que o regime cubano, e ainda continua matando nas tantas reconfigurações da Cosa Nostra dentro das corporações industriais modernas do país; e em consideração aos vietnamitas, riscar o fósforo e queimar 90% da obra de Oliver Stones sobre o Vietnã...." E assim vai...

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