quinta-feira, 10 de maio de 2012

A última entrevista de Nelson Rodrigues


Entrevista de Nelson Rodrigues, concedida em outubro de 1980, ao jornalista Tom Murphy, do jornal “Latin American Daily Post”. O dramaturgo morreria dois meses depois
Nelson Rodrigues
Tom Murphy
Fui recebido por um homem pálido, até mais alto do que eu imaginava, de calça azul mal ajustada pelos largos e famosos suspensórios; um homem lento no andar e na fala. Lento de dar pena. Anos depois conheci Alfredo Machado, dono e cabeça da Editora Record, a quem relatei a experiência daquele dia: “Entrevistei o Nel­son Rodrigues dois meses antes da morte dele; ele já estava doente, muito mal mesmo”. O grande mentor de tantos escritores brasileiros riu: “Nelson estava muito mal sempre”. Naquele ensolarado outubro de 1980, tive o privilégio de conversar durante uma hora e pouco — sentado, como tantos de seus personagens, diante da simples mesa de cozinha — com Nelson Rodrigues. O cenário era bem Nelson: um apartamento escuro e assombroso na beira da alegre praia carioca do Leme, um cheiro leve, não do mar, mas de desinfetante. Na época eu trabalhava para o “Latin American Daily Post”, jornal de língua inglesa, que publicou a entrevista dias depois. Foi só em dezembro que eu soube da real dimensão da doença de Nelson, quando ele deu entrada num hospital. No mesmo mês, dia 21, ele morreu, aos 68 anos.


A partir da morte dele, a entrevista, que permanecia inédita em português, virou, para mim, uma grande curiosidade, quase um talismã. Eu fui um dos últimos a falar com Nelson Rodrigues, o famoso e, para tantos, infame e tarado homem das letras — o par de Tennessee Williams e Jean Genet da dramaturgia brasileira. Já no fim, já enfartado e safenado, mas nada manso, era lúcido e atuante, o maior dramaturgo nacional.

Qual é sua visão sobre o papel dos intelectuais no Brasil?
Os intelectuais brasileiros não têm nenhuma importância. Há algumas exceções, como o grande sociólogo Gilberto Freyre, mas estes constituem um grupo seleto.

Os escritores brasileiros, pelo menos, conseguem mostrar a realidade brasileira?
A cultura brasileira não é uma cultura escrita. O pouco que existe hoje da cultura brasileira é estéril. Não se escrevem romances, poemas e ensaios como antes. E só é assim que o escritor tem possibilidade de tocar nos assuntos mais profundos. O que falta entre os intelectuais brasileiros de hoje é paixão. Não dá nem para ler os jornais. As notícias são velhas! Antigamente, até os jornais eram mais dinâmicos. Um jornal como “A Noite” saía com as notícias do mesmo dia! E com muito espírito. Do ponto de vista da cultura, o Brasil hoje vive uma fase de transição. Existe uma literatura aguardando para nascer. Vai nascer cedo ou tarde, pelo menos eu espero. A literatura brasileira aguarda um gênio para tirá-la do tédio. Por enquanto, porém, não há gênio à vista. (Em 1980, os escritores e intelectuais brasileiros pareciam confundir-se com políticos, num país que corria para a mudança do regime militar para a democracia. Nelson Rodrigues criticava essa posição. Ao mesmo tempo, dizia que o mundo estava sendo dominado pelos “idiotas”.)

Qual sua opinião sobre intelectual e política na atualidade brasileira?
O intelectual que entra na política não faz nenhum bem para ninguém. Em primeiro lugar, não entende nada da política. An­tigamente, a política era uma profissão para pessoas com determinados conhecimentos e hábitos. Era um dom. Todo mundo virar político é ridículo. Mas, hoje, os intelectuais vão aos comícios. Para quê? Para aparecer, tirar foto e vê-la nos jornais. Para o artista, a melhor maneira de servir a pátria é servindo arte.


Qual é sua avaliação do Brasil de hoje como sociedade?
A verdadeira história do Brasil só vai começar com a chegada em cena de uma grande figura, um Napoleão. Os Estados Unidos tiveram George Washington, a França, Napoleão. Nós tivemos Juscelino Kubitschek, um grande homem, de certa forma, com grandes qualidades, mas quando eu falo de um Napoleão, eu me refiro a algo muito maior do que um Juscelino. A China, por exemplo, teve Mao [Tsé-tung] e Chiang Kai-Shek, homens que correspondiam às necessidades da época.

E o Brasil de hoje?
Antigamente, todos eram idiotas e o sabiam. O mundo tinha milhões de idiotas, todos humildes. Muito sabiamente, eles se consideravam idiotas. Mas hoje em dia, quase todas as pessoas se consideram competentes. Os idiotas querem ser professores, ministros, presidentes. O nosso mundo é dominado pelos idiotas. A única maneira de combater essa onda de idiotice é através de um homem com o magnetismo de um Napoleão. O problema do Brasil é o mesmo de todos os países subdesenvolvidos: a falta de autoestima. Quando um povo não acredita em si mesmo, não acredita em nada. Bom exemplo disso é a mania do povo brasileiro  de massacrar a seleção de futebol. Isso me irrita profundamente. É só a seleção errar em uma coisa e todo o País vem em cima. O brasileiro só sabe torcer pela seleção quando ela está ganhando. Quando perde, vem em cima com chicote.

O sr. disse que o homem competente não tem vez. E o artista brasileiro?
Não. Eu, por exemplo, sempre tive de trabalhar como jornalista. Não que eu  despreze a profissão. Mas, nos Estados Unidos, um escritor lança um best-seller e já pode se aposentar. No Brasil, você tem de trabalhar até o fim da vida. Se eu tivesse escrito tudo nos Estados Unidos que eu escrevo aqui, eu hoje seria um homem milionário. Mas em vez disso, eu ainda tenho de trabalhar para comer.


Eu gostaria que o sr. falasse um pouco sobre a censura e o modo como ela afetou sua carreira.
Tenho muito a falar sobre censura. Sou autoridade no assunto. Nos últimos 35 anos eu tenho sido o autor brasileiro mais censurado. Censura é uma barbaridade, uma monstruosidade. O único papel legítimo para a censura é classificatório, ou seja: pode somente limitar certas coisas para certas faixas etárias. Não pode limitar, de maneira alguma, a criatividade do artista.

O sr. falou de faixas etárias. A propósito, qual a sua opinião sobre a juventude hoje?
Fui recentemente a um programa de televisão e me perguntaram se eu tinha alguma coisa a dizer aos jovens brasileiros, ao que respondi: “Que deixem de ser infantis”, somente. Nunca a juventude foi tão pouco generosa, tão pouco heroica, tão pouco humana. Espero que um dia a juventude tenha um grande renascer. É necessário. Os jovens da França praticamente tomaram o poder em 1968. Deram as costas a De Gaulle. Mas, uma vez no controle das universidades, eles não fizeram absolutamente nada. Descobriram que não tinham nada a dizer. Era tudo puro exibicionismo. Afinal, o que tem a dizer um jovem de 17 ou 18 anos? Nada. São os velhos que detém a sabedoria e que podem assumir a liderança. De Gaulle era velho. Mao era velho. Chiang era velho.

Suas peças foram sempre polêmicas. Por que escolheu temas relacionados ao sexo e à violência, tão controvertidos?
Nas minhas obras eu tento transmitir algo que vem de dentro de mim. É trabalho duro, um sacrifício. E acho que, para escrever bem, o escritor precisa de algumas obsessões, algumas ideias fixas, que sustentam a sua obra. Sem isso, o trabalho vira um caos. Um dos meus temas preferidos é a violência humana. O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz. É somente isso, uma verdade e, portanto, uma obsessão.

Qual é a avaliação que faz do teatro brasileiro hoje?
Era muito melhor antigamente. Hoje todo autor virou demagogo.

Quais os seus autores favoritos? Brasileiros e estrangeiros.
Meus autores brasileiros prediletos são Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Euclides da Cunha. Gosto muito de Dostoiévski. Gosto dele desde jovem. E gosto de Tolstói. A Rússia tem, ou tinha, uma literatura de boa qualidade. Um país onde um escritor pode ser internado num hospital para doentes mentais porque escreveu algo contra o governo não pode ter uma literatura importante. Os Estados Unidos tem um dos maiores dramaturgos do século 20, Eugene O'Neill. Também tem Faulkner e Hemingway. Da França, eu gosto de Gide, Albert Camus e alguns outros. Não suporto Sartre. Ele traiu a condição de escritor quando virou político. Não me entusiasmo muito com Borges. Hoje em dia, eu estou na fase de ler os clássicos de novo. Um livro bom é sempre novo.

Nota: Entrevista publicada pelo jornal “Latin American Daily Post”, em outubro de 1980. E republicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em julho de 2002.


(Entrevista retirada daqui)

8 comentários:

  1. Em uma resposta se encontra o mote principal: as "ideias fixas". Nelson escreveu a mesma peça de teatro várias vezes, com poucas variações, sendo sua principal motivação a desmistificação da história enquanto atributo da práxis humana, e a mistificação do ser dotado de uma alma imortal cujo destino não depende de suas ações terrenas. Não era um pornógrafo, mas um moralista, na vertente de um Santo Agostinho. Sua técnica deve muito a Tolstói e Dostoiévski, principalmente no que se refere às obsessões que giram em torno de fórmulas que se repetem enquanto um personagem busca o entendimento do que é a aventura humana na Terra e se há transcendência.

    Suas visões de política e cultura são marcadas por um conservadorismo amargo. Diz gostar de Gilberto Freyre mais porque, em sua época, o sociólogo era cultivado pela ditadura e descartado pela esquerda. Nelson é um antiesquerdista programático que, no entanto, soube ser amigo de pessoas como Augusto Boal, e disse gostar de um filme, Terra em Transe, de Glauber Rocha, talvez pelo barroquismo da obra que pode ter lembrado a ele a verdadeira feijoada da alma que é o Brasil e os brasileiros (isto na visão de um rapper norte-americano que vive no Brasil).

    Gosto dele; ele tem humor e sabe trabalhar com o detalhe patético que ajuda a definir um personagem aos olhos do espectador em uma fração de segundo, por força da tipificação, recurso mais comum às comédias que às tragédias (sendo este último seu "verdadeiro" gênero).

    Como homem político e crítico da cultura, porém, não me parece interessante. Seus refrões são os mesmos dos reacionários (que ele mesmo se dizia ser e, numa de suas blagues, intitulou sua biografia de O Reacionário) que sempre usaram o Brasil para enriquecer enquanto louvavam a cultura de Paris ou a pujança econômica dos EUA.

    “Nelson estava muito mal sempre”. disse Aníbal Machado. Ele hoje seria chamado de algo que se tornou usual nos anos 80/90: um ressentido. Palavra que passou a definir as pessoas de esquerda fracassadas diante do fracasso maior do socialismo e atônitas diante do "sucesso" do capitalismo e sua disseminação como pensamento único. Pensamento único - ideia fixa. Cheguei aonde queria chegar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dois grandes anti-esquerdistas: Millôr Fernandes e Nelson Rodrigues. Mas, Rachel, o meu Nelson preferido (se posso dizer assim, já que não li seus romances e peças) é o cronista. Se ele tivesse escrito seus romances com a mesma acidez e envolvimento pessoal que dedicava nas crônicas, penso que não teria mais para ninguém. A necessidade comezinha apontada na entrevista da sobrevivência do autor brasileiro que o fez romancista de segunda classe. Se tivesse tido independência, poderia ter fugido do histrionismo comercial das mulheres que gostam de apanhar e de maridos que gostam de ser traídos do pobre imaginário urbano nacional.

      Gosto muito dos reacionários. Ninguém mais genuínos e essenciais que eles, hoje em dia.

      Excluir
    2. Nelson escreveu:

      "Arnaldo Jabor crescerá de maneira fantástica quando brigar com todas as suas atuais amizades.O Jabor só não é muito maior porque não é reacionário".

      Como se vê, mais um erro.

      Ele acertou quando prefigurou a briga de Jabor com seus amigos de esquerda, mas supôs que isso o ajudaria, quando veio a ocorrer ao contrário: Jabor desceu à infinita mediocridade. Nada essencial.

      Excluir
  2. Eu, que gosto de futebol, fico puto com as tiradas hiperbólicas dele (sua principal característica), principalmente duma que é mais ou menos assim (se não for exatamente assim, porque essas babaquices ficam na memória mais que visgo de piche na mão):

    "A pelada mais sórdida tem as dimensões de uma tragédia shakespeareana..."

    Dá para confiar num cara desses?

    ResponderExcluir
  3. Não me entusiasmo com o witticism do Nelson Rodrigues. Parece-me banal como aliás é banal a intelligentsia brasileira.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mas aí nos remetemos à entrevista, à acusação de Nelson de que não temos auto-estima. Muitos dos produtos culturais norte-americanos só se sustentam por uma distorção da ótica. O mercado dali, cheio de auto-estima e alimentador incansável da mitomania, eleva banalidades ao nível de obras de arte autênticas, e acaba que acreditamos piamente nelas. Kurt Vonnegut, Paul Auster, Jack Kerouac, Alan Moore.

      Domingo último um amigo fez a prova do concurso para policial federal. Ele se estarreceu do quanto a prova requereu candidatos não só proficientes em matérias judiciais como detentores de considerável cultura. Uma das questões explorava quem usou primeiro o termo "fetiche", se Freud ou Marx. Trata-se de uma frase antológica de "O Capital". A mercadoria como fetiche cheio da argúcias metafísicas e teológicas.

      Não vistes que um horrível quadro do Bacon atingiu a marca milionária do segundo mais caro do mundo? E numa lista da New Yorker eles tiveram o descabimento de colocar entre os 100 maiores romances de todos os tempos a história em quadrinhos Watchmen? Ah, se nós copiássemos eles também nestes aspectos!

      Excluir
  4. O Alan Moore não é americano, é inglês...Concordo que é um baita exagero colocar watchmen do lado de Odisséia e outros. Mas provavelmente a sua inclusão na tal lista foi marketing(para a lista), que sempre será lembrada pelo "ultraje".
    E se fosse para cometer o ultraje, eu colocaria Sandman de Neil Gaiman, que tem uma linguagem mais literária que watchmen.

    ResponderExcluir