sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Paradoxo do Sossego



Na biografia de Stalin escrita por Dmitri Volkogorov, há uma parte eloquente para continuar a se compreender como os ideólogos da revolução mantinham suas forças intelectuais e seus abrangentes conhecimentos em atualizada ebuliência, apesar de levarem uma agitada vida de apóstatas fugitivos da vigilância czarista. Escreve Volkogonov: os revolucionários, no exílio ou na prisão, geralmente lêem muito. A prisão é, para eles, uma espécie de universidade. G.K. Ordzhonikidze relembra que, quando esteve na fortaleza de Shlisselburg, em São Petersburgo, leu Adam Smith, Ricardo, Plekhanov, Alexander Bogdanov, William James, frederick W. Taylor, Klyuchevsky, Kostomarov, Dostoievski, Ibsen e Bunin. Já no último romance de Tolstói, Ressurreição, vemos as condições dos presídios czaristas, suas semelhanças arquitetônicas com os esgotos parisienses, as longas marchas continentais onde parte dos prisioneiros sucumbia ao tifo e à fome antes que alcançasse os cenários de catacumbas invioláveis e as câmaras sombrias de esquecimento nas quais não chegavam a justiça. Mesmo na denúncia de Tolstói, podemos antecipar o paradoxo do sossego instalado entre esses filósofos sociais cujo principal conhecimento advindo da experiência era tornarem-se maleáveis à dureza, alheios às manifestações do ambiente, capazes de dormir imunes ao barulho, ao frio, às baratas e ratos, e cultivar um mesmo potencial de concentração na leitura dos livros que o regime do czar, inadvertidamente, lhes oferecia. Em uma das cenas finais de Ressurreição, presos como Novodvórov e Markel Kondrátiev, sentados no catre da cela apertada, surpreendem o herói do romance, Nekhliúdov, com seus diálogos altamente cerebrais, refletindo com amarga paixão não só as previsões de que a revolução proletária estava próxima, como também sabendo dissertar sobre as ideias mais modernas da hora sobre Darwin e a falência da igreja ortodoxa diante as agruras da realidade insofismável dos camponeses e trabalhadores. Passar cinco anos preso em um aparte temporal desses equivalia, numa derivação conceitual extrema mas não inverídica, se exilar com introvertido conforto no mundo das ideias platônico; apenas que a diferença fundamental era que o contato com tais paragens de intensa dialética e refinado doutrinamento universal tinha como meta a imagem de um novo mundo a ser efetivado, de uma preparação para anos brevemente vindouros de conflagração social. Essa generosidade certamente inconsciente de Nicolau II, nascida de uma das inúmeras falhas da administração já há muito corrompida e obsoleta da monarquia russa _ que era disfuncional o suficiente para não perceber que alimentava seus dissidentes justamente com o que eles  mais precisavam _ , gerou o fruto efêmero de, após a tomada de poder por parte dos revolucionários, um grupo de intelectuais, liderados por Kerensky, ter tentado com unhas e dentes deportar a família Romanov para fora do país, não o conseguindo por a Inglaterra fechar suas fronteiras ao exílio real enquanto a Rússia não resolvesse sua guerra civil. Como sabemos, as incursões da barbárie na história pôs outro rumo diante a dinastia dos Romanov.

Volkogorov repete à exaustão, como se suas amarras compulsórias às formas do stalinismo no papel de coronel-general do exército soviético lhe exigisse essa vingança tardia, o quanto Stalin era raso de ideias, um escritor medíocre e pensador inexpressívo, orador monocórdio sem brilho, e o quanto sua consciência da própria pequenez diante intelectuais sofisticados como Kamenev e Zinaviov _ e, sobretudo, Trostky _, fomentaram uma inveja retalhadora que alcançaria proporções de delírio deísta quando teve o poder absoluto em mãos. Mesmo Stalin leu bastante nas prisões czaristas, revela seu biógrafo, mas o aprendizado que lhe ficou foi bem diferente do de seus colegas. A prisão soviética criada no stalinismo desbasta de maneira peremptória todos os relativos idílios surgidos nos interstícios da indiferença czarista que formaram intelectuais poderosos, que mais tarde destronaram o czar. Stalin, que tinha conhecimento pleno dessas prisões, tendo passado por sete delas (e fugido de cinco, reafirmando  quanto era leviana a guarda punitiva na base dessa instituição), encetou prisões que, no seu dizer, eram "um regime intolerável para os inimigos do poder soviético". As prisões não seriam mais "universidades" para os desafortunados, mas um símile antecipado dos campos de concentração nazistas. Nelas não haveria a menor chance de leitura, abolia-se a presença de papéis para cartas ou a consecução da escrita de livros. Stalin obteve resultados tão favoráveis a seus propósitos que os presos que conseguiram escapar das estatísticas  de boa parte dos 60 milhões de mortos do regime como resultante dessas prisões, tinham que recorrer a subterfúgios para se fazerem comunicáveis. Joseph Bródski, que escreveu ser dessarroado erguer qualquer monumento à liberdade em uma cidade que levasse o nome de Lenin, disse que uma das funções voluntárias de sua juventude minuciosamente trabalhada na contramão da sociedade alienante e seguidora marcial de ritos, era colher as cartas que lhe arremessavam os deportados pelas janelas das celas, na ruela atrás do presídio, e fazê-las chegar a seus itinerários, fossem jornais clandestinos ou as inúmeras viúvas e órfãos de pais vivos.  O milagre de Solzenytsin de conseguir contrabandear suas milhares de folhas de papel higiênico  escritas em frente e verso de um Gulag para as prensas francesas, se deu por haver tantos orifícios onde se esconde-los em rolos finíssimos nas paredes deterioradas das celas quanto havia de uma ressurgente distração na atenção dos carcereiros.

E o interessante é a percepção de que esses dois procedimentos acabaram por relegar símbolos premonitórios que atestam o fim do czarismo e a anorexia na qual foi implodido o stalinismo e o regime soviético como um todo. O surgimento de homens duros e frios, de estudantes ardorosos da mudança, como efeito colateral à produção pelos Romanov de milhões de famintos, acabou que não teve a concentração programática para tornar possível à frente do poder revolucionário uma coalizão de intelectuais bem intencionados para cumprir a promessa de levar ao povo a educação, o pão, o trabalho e o repouso compensatório. Em vez disso, essa mesma fome que gerou uma esperança incansável, fez surgir Iosef Vissarionovich, vulgo "Koba", vulgo "Stalin". Décadas de repaginação do Mal como repressão, assassinatos e silêncio, fez ruir um país continental há muito oco de espírito e estacionado em seu emaciado estupor de não se ver merecedor da chama da mudança rilkeniana.

Nos extremos dessa história que não engana o vislumbre de sua escala de repetição cíclica, dois homens aterrorizados: um na iminência de sofrer as torturas imputadas a sua esposa, filhas e filho, antes de seu assassinato com eles, outro vivendo seus últimos minutos agonizantes esticado no chão de sua datcha, absolutamente sozinho na ordem dada por ele mesmo de que não violassem sua insuspeita cena de morte.

2 comentários:

  1. Charlles, fugindo do assunto do post, como esta a leitura do Contra o Dia? O que esta achando?

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    1. Jonas, estou na página 50. Como você deve saber, se for um leitor de Pynchon, só podemos dizer algo sobre um romance dele quando o lermos inteiro. Li na Época uma resenha desonesta, cheia de lugares comuns de alguém que tenho certeza não leu o romance, mas veio fazendo uma série de elogios e cópias de opiniões espalhadas pela internet.

      Claro que estou gostando.

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