quarta-feira, 25 de abril de 2012

Do porque não gosto de Pedro Páramo


Alguém que cai de gaiato às vezes neste meu blog já leu Pedro Páramo, de Juan Rulfo? Eu li. Não é um romance pequeno, apesar de ser esbelto e, nos dizeres da Raquel de Queiróz sobre seus próprios livros, não se sustentar em pé sozinho na estante. É por ser um dos grandes romances do século XX, segundo o aval de escritores e gente que eu respeito muito, que eu o li por volta de meus trinta anos. E olha que os defensores de sua excelência não são qualquer um: Borges diz que é um dos maiores livros da língua espanhola e do universo; Garcia Márquez atribui parte de sua vocação de escritor à noite febril em que leu por duas vezes Páramo num quarto de pensão_ chega a dizer que a única obra que o ombreia é Édipo Rei, de Sófocles. Llosa também tem seus ardores pela história dos mil pais de mil Pedros Páramos na qual todos são aparições do além-túmulo ao mesmo tempo que miasmas de uma memória pouco confiável. Pois, naufragado nesta imposição de que qualquer leitor descente deve ler Juan Rulfo, eu assim o fiz. Quis ser atingido logo no início pelo milagre da grandeza, mas como isso não se deu, fiquei na expectativa de que a coisa acontecesse ao longo das trinta primeiras páginas, como sói ocorrer com o melhor de Dostoiévski e Faulkner. Um leitor tarimbado sabe que a melhor literatura exige disciplina e paciência. Mas Rulfo só me causou um enormíssimo tédio e uma depressão quanto às letras que quase me fez ver que felicidade são longas tardes de domingo apostando quem vai atravessar a ponte e chegar do outro lado dos obstáculos de brinquedo para ganhar os cem reais do programa de auditório, e não esse pedaço vegetal trabalhado que se comprime entre duas capas e se abre facilmente para ver seu ano de publicação na página dois.

Se tem um livro que posso afirmar com todas as letras ter sido o pior que já li em toda minha vida, esse é Pedro Páramo, de Juan Rulfo. E os que me conhecem sabe que acho Ulisses um sunday de cupuaçu com framboesas verdadeiras e castanhas de cobertura, e Faulkner é uma dessas alegrias de se ver jovem novamente e a morena deslumbrante de olhos verdes e vestido decotado saindo de uma Mercedes ter a visão reduzida de toda a paisagem apenas para a apreciação lúbrica de sua trêmula masculinidade. Então, por muito tempo fiquei seriamente desapontado comigo mesmo enquanto leitor. Uma coisa eu sabia, ou duas: eu jamais conseguiria ler novamente Páramo para tirar a prova dos nove, pois arrastei a conclusão do livro por todo um mês; e a exposição de Páramo era um perigo iminente que poderia cancelar de forma definitiva em meus alunos o prazer da leitura (eu era professor de filosofia e biologia em um colégio das zelites na época. Credo!). De forma que eu, que sou absolutamente adepto a não arvorar leituras e prazeres que eu nunca tive, sendo avesso à doutrina de contar vantagens, me vi mentindo sobre Pedro Páramo, afirmando que Pedro Páramo era o mais próximo a Faulkner que tínhamos por aqui, que Pedro Páramo definira a grande literatura latino-americana do século, etc. Recordo que participei de um sarau de literatura promovido por uma revista na qual eu contribuía com textos esparsos, em que o tema cambiou para Pedro Páramo e lá me vi eu possuído pela vida que se exibe dizendo com todos os 31 dentes arreganhados de marfim kolinizado e a ponte soldada do molar perdido alhures que se tratava da busca mitológica da identidade telúrica do latino-americano por sua expressão no universo de sua própria identidade idiossincrática. Sendo que por dentro eu segurava pelo cabresto o opositor selvagem que gritava é uma grandissíssima de uma pura merda porque passara a duvidar seriamente se essa voz não havia se pervertido de modo inexorável ao excesso de Stephen King a que foi submetido aos meus 17 anos.

Essa prostituição só me afigurou do mesmo calibre de quando eu tive que passar toda a tarde de um perdido sábado na biblioteca da universidade federal procurando para o pulha de um orientador de estágio todas as imagens de coração bovino que encontrasse, sabendo claramente que tal professor só fazia isso para testar seu domínio militar sobre mim. Assim me deixei levar pelo grande tédio de Rulfo, e pela corporação de escritores que queriam dividir sarcasticamente tal tédio com seus leitores ao anunciarem Páramo como uma das maravilhas do mundo _ só pode ter sido isso. Em minhas aulas eu costumava levar vários livros e cds e mostrar para os alunos provincianizados pela tv a produção cultural do século XX. Alguns alunos mais dedicados me enchiam de orgulho ao aparecerem em aulas posteriores trazendo debaixo do braço o Cem Anos de Solidão, o A Queda,  Santuário, havendo mesmo um mais corajoso que pegou um mote passageiro de um tema sobre existencialismo dado por mim e comprado o indigesto O Ser e o Nada. Mas nunca mencionei nem distantemente esse buraco negro que suga todo o tesão e ânimo da leitura, dizima toda frágil filigrama  de interesse da música livresca que se afirma delicadamente na juventude, Pedro Páramo.

A maturidade nos reserva algumas boas vantagens sobre os anos derrisórios da juventude. Um deles, ou dois, é não cair mais na sevícia de impostores como Rulfo, e não precisar mais afagar a vaidade de um doutor de 150 quilos me martirizando na procura de exercícios vazios num sábado. Um sábado é sagrado para gastar-se lendo o que um já bem intencionado Borges disse em compensação: só ler os livros que te causem prazer.

13 comentários:

  1. Rulfo não é o pior autor do mundo do pior livro do mundo. É apenas algo que ficou datado; que foi tomado como ícone e agora está à disposição da iconoclastia. Os livros dele são chatinhos, mas não são piores que os livros de Garcia Márquez. Por mais que tenha gostado de Rulfo, Llosa o faz paradigma do engodo telúrico em seu banalíssimo Cadernos de Don Rigoberto (não cita livro e autor, mas investe contra o tipo de "realismo mágico" latinoamericano que projetou muitos, inclusive o próprio Llosa).

    Ah, sei lá, isso chega uma hora fica um tiroteio de gostos, que nem fazem as adolescentes discutindo boys bands.

    Talvez daqui a uns 10 anos você também se dê conta que A Vida Breve é tedioso. Que não dá prazer nenhum de ler. Que é pior que nota de suicida. Mas, sei lá, mil coisas.

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    1. Talvez. Mas uma correção: o realismo mágico não fez nada por Llosa. Se não houver nenhum mérito a atribuir a Llosa, esse não pode ser negado: ele foi um dos raros, senão o único, absolutamente realista dos escritores do boom.

      Das boy bands gosto muito do The Rubinoos.

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    2. É, mas fez sim; do realismo mágico via Rulfo nasceu o boom que puxou toda literatura latino-americana, Llosa no bojo, que ainda fez seu livrinho mais cordial com a tchurma, que foi Tia Julia e o Escrevinhador, realista ma non troppo. Depois é que ele se bandeou para a Europa e virou o boçal que é hoje. Com verniz culto a cobrir a cara de pau dele.

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  2. Isso não acontece somente com livros, tampouco apenas com outras artes. Filmes celebrados por aí me cobraram esforço de Hércules para não ceder a Morfeu. Depois de iniciado com "Onde sonham as formigas verdes", corro légua da grife Herzog. Tô citando um que, acredito, é uma unanimidade: qualquer pessoa precisa destestar Herzog.

    Acontece também com comida e com cerveja. Eu sou francamente favorável ao extermínio de enólogos e essa gente que pretendeu harmonizar um ou dois jantares em que tive que, sei lá, mentir sobre o quanto achei Herzog incrível, mas preferi "Onde sonham as formigas verdes" (que eu vi) a "Fitzcarraldo" (que eu jamais vou me dar ao trabalho de assistir).

    Perfumes, cores, texturas etc. Conheço muita mulher que não gosta de Channel nº 5. Eu quase não uso perfume, mas tem um famosíssimo aí que, vou te contar, é ruim demais.

    Acontece com gentes. Sabe aquela figura incrível, que todo mundo é só elogios? Aí você conhece e acha um chato de galochas. Quem nunca?

    Também rola para hipnóticos e ansiolíticos. Treinado que sou, não confio nos especialistas, sejam farmacêuticos que sugeriram novas drogas, ou psquiatras que as prescreveram. Os mais baratos são os melhores - ainda que o efeito demore mais do que um bom (sic) Herzog.

    Hoje, já não tenho vergonha de dizer que mortadela dá de dez em presunto parma.

    Fábio Carvalho

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    1. Mortadela COM CERTEZA dá de dez em presunto de Parma.

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    2. Fábio, por isso que não levo o cinema a sério. É uma "arte" (essas aspas não servem para alguns filmes de Fellini) feita sob medida para se sair de culto em encontros sociais e virtuais. Vamos pegar o A Fita Branca, p. ex., um filme até bem interessante, mas você fica mais de duas horas submetido a uma inércia que lhe cobra exímia atenção só para saber o já previsível enfeixe de conivência social ao nazismo, e tudo reforçado pela sensação sofisticada de que é um "estudo sobre a propagação do Mal". Muito mais produtivo_ e divertido_ gastar esse tempo lendo Canetti e Arendt, que falam das massas e da banalidade do mal.

      Eu não uso perfumes também, mas já ganhei um tal da Pierre Cardin caríssimo que cheirava limonada. Nunca vou a circos com medo de que seja eu o sorteado dos dez metros de linguiça clássicos dada ao mais feio da platéia, e até gastar esse Pierre Cardin não ia a shows infantis com palhaço temendo ser cercado por uma patota eufórica querendo que lhes desse o saquinho de laranjinha.

      Ansiolíticos e hipnóticos (não sabia que esses últimos existem! Usando-se, corre-se o risco de algum mau intencionado lhe sugerir ser uma galinha?), eu nada sei. Sempre tive um medo feminino (avosino, de avó, por terem me passado a imagem de que são tão deletérios quanto cocaína) deles.

      Mas claro que mortadela é muito melhor que presunto de Parma. Aliás, me fez lembrar daquela carne de porco apodrecida por 4 anos que vendem a preço de ouro como Pata Negra, e que o Fidel compra de montão.

      E aquele café mais caro do mundo que é extraído das sementes cagadas por um gato na Indonésia?

      Além do mortalmente tedioso Melancholia...uma reencarnação da capacidade extenuante da arte pretensa. Não dá!

      Fico aqui no meu interiorzinho, longe das pessoas requintadas, sem me achar menor mas sem me achar nem um pouco em defasagem com a tendência atual de não sei lá o quê...

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    3. De modo recorrente, faço comentários que fogem ao tema. Se eu tivesse vergonha, fazia um blog e parava com isso. Mas "vergonha é deixar de comer: disfarça e compra", já dizia um comercial de mortadela, que é muito melhor que presunto parma e não tem nada a ver com o parônimo Páramo do post.


      Bem, eu não saco nada de farmacologia e talvez não existam grandes diferenças entre o que eu chamei de ansiolítico e de hipnótico. Em bom português, acho que é a diferença de um calmante para um sedativo. Mas a turma tarja preta que eu conheço é toda benzodiazepínica mesmo.


      Há pessoas que, num dia tenso ou atípico, embalam em sono com uma dose baixa de um 'benzo' pouco potente. Isso não faz nem cócega em mim. Aumentar a dose, ou usar o que eu chamo de calmante mais potente, significou não dormir e ter ressaca no dia seguinte (para mim).

      Não faço uso regular, não, risos. Mas precisei fazer, daí a experiência. Foi nessa época que usei um benzo famoso por ser a droga do 'Boa noite, Cinderela'. É o único que me induziu sono e não deixou NENHUMA ressaca no dia seguinte. Deve ser devastador para pessoas mais sensíveis.

      Acho (!) que nunca me induziram a ser galinha e não houve relatos de eu sair de sapatinho de cristal madrugada afora. Ainda tenho os dois rins. Não, nunca fiz uso do Amplictil, o sossega-leão dos sanatórios, nem do Propofol do Michael Jackson.

      F.C.

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  3. Em respeito ao off topic, quero declarar que estou apaixonado. (Ouvi ontem, não paro de ouvir e tento fazer cornetinha com a boca).

    http://www.youtube.com/watch?v=-F_9fgtEKYg&feature=player_embedded

    F.C.

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    1. Que susto, Fábio. Por um momento pensei que fosse algum novo vídeo da Banda Mais Bonita da Cidade. Mas, por essas tergiversações naturais a este blog, me fez lembrar de Carla Bruni, e desse excelente ensaio:

      http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-66/carta-de-paris/sem-saida

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  4. Muitas vezes o problema não é do livro, mas de quem o lê.

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  5. Ah, teus últimos posts estão muito bons, em que pese eu discordar de algumas coisas. Benditas férias tuas.

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  6. Um texto que publiquei no meu blog algum tempo atrás; nele menciono uma fotografia entre outras expostas pelo autor, que não posso reproduzir aqui, infelizmente - é uma fotografia muito boa:

    "O mexicano Juan Rulfo escreveu apenas dois livros que deram atestado de maioridade e um estilo até hoje emulado por escritores não apenas do continente americano, mas do mundo inteiro. Foi uma redenção mas também uma maldição: muito por influência dele, surgiram derivações do realismo maravilhoso logo tornado mágico e, em pouco tempo, nenhum, escritor latino-americano era levado em consideração se não fosse, como Rulfo, “telúrico”, isto é, algo como a expressão da própria terra, suas raízes, suas gentes, etc. Nada contra Rulfo ou mesmo contra o telúrico, apenas contra um padrão que se impõe a uma região composta não apenas de lugarejos desérticos perdidos na imensidão, entre revoluções traídas e onipresentes coronéis, ou ainda de florestas e índios paralelamente dizimados; tudo isso existe e deve ser tratado, mas não como imposição monotemática.

    Por esses dias, o Instituto Cervantes, no Rio de Janeiro, iniciou uma mostra sobre o autor, não literário, mas fotográfico. Juan Rulfo, muitos não sabem, era também fotógrafo, e talentoso, conforme comprova a linda foto que ilustra este texto, intitulada Alice nos ahuehuetes (que são as árvores gigantes ao lado da diminuta figura da menina).

    Bom, se Rulfo mesmo não era apenas um e só uma única coisa, não é imperioso que a literatura latino-americana siga o exemplo de Pedro Páramo ou de Chão em Chamas. Não que ainda insistam nesse filão mas, a cada vez que um romance surge e é criticado como inexpressivo, ressurge a nostalgia pelo belo padrão um dia atingido e nunca superado. Como se o presente fosse apenas o passado mirando o futuro sendo apenas uma só coisa imutável, o tempo, coisa que nem um fotógrafo é capaz."

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    1. Belo texto! Já o tinha lido em seu blog antes, sendo através dele que tomei conhecimento do Rulfo fotógrafo.

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