segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cada Vez Mais Podre

Os sargentos Laci e Fernando

A Caminhante me disse certa vez que parou de comprar a revista Piauí por sentir culpa em não ter tempo de ler a publicação toda. A mesma coisa ocorre comigo. Há uma pilha de Piauís aqui em casa que praticamente são entocadas com uma ou duas matérias lidas e só. Daí para o esquecimento. Mas sempre acontece um jogo do acaso que me impede de cancelar de vez sua assinatura; alguém comenta determinado artigo que me leva a retirar um dos números da pilha e ler, etc. Neste final de semana fui recomendado a ler uma reportagem intitulada "Acossados", publicada na Piauí de março. Quem me indicou disse não se tratar apenas de uma história absurda sobre discriminação contra homossexuais, mas uma radiografia sobre uma das facetas do Brasil Real que desavisadamente está passível a nos encontrar na esquina e nos quebrar os ossos da cara. Eu li a matéria sentado no sofá, depois passei para o chão da área da garagem, depois para um colchão nos fundos da casa, e retornei à garagem. Quem já leu alguma Piauí sabe que os textos são longos, atravessam cinco páginas, o que acrescenta à envergadura da empreitada o fato das folhas da revista serem do tamanho das folhas de jornal. Esta é uma das outras razões do porque acho que vou seguir os próximos anos assinando-a, mesmo depois que o contrato acabar em fevereiro do ano que vem: a Piauí é uma revista para quem gosta verdadeiramente de ler. Isso não é uma propaganda. A razão de meu elogio, quem ler o artigo "Acossados" no site da revista, saberá o motivo. Em nenhuma outra publicação nacional vi uma acusação tão séria, contundente e enérgica contra a hipocrisia e os interstícios de nosso atraso como democracia do que esta.

Vou resumir: trata-se dos fatos envolvendo as descobertas de corrupção feitas por dois sargentos do exército brasileiro, Laci Marinho de Araújo e Fernando Alcântara de Figueiredo, tendo como alvo o superfaturamento de um hospital militar de Brasília. Com a revelação desse superfaturamento à justiça, começa um verdadeiro pesadelo na vida desses dois sargentos, em que eles são perseguidos, ameaçados de morte, um deles é preso e torturado, e no mais tem suas vidas viradas do avesso. Nota: não, não se trata de uma história resgatada da época da ditadura, mas que se iniciou em 2008 e mal está tendo sua sofrida conclusão neste exato momento enquanto escrevo. Outra nota, é que toda a caça aos dois, feita pela cúpula do exército brasileiro e por bastiões medievais da justiça e da imprensa nacional, parece se firmar no detalhe desses sargentos serem homossexuais e terem um relacionamento fixo entre eles, mas na verdade só usam isso para acobertar fatos que revelam o quanto há de corrupção e sujeira no estancamento temporal que é o anacrônico militarismo brasileiro. Os sargentos Laci e Fernando travam uma batalha quase praticamente sozinhos contra a alta cúpula do exército e da justiça militar; o sargento Laci é diagnosticado com um raro caso de epilepsia que o incapacita sequer de realizar as mínimas tarefas cotidianas, o que o coloca em perigosas ocasiões armadas de falsos diagnósticos feitos pela junta médica do exército, tentativas  de inculpá-lo como mentiroso, até a determinação de prendê-lo por deserção. Isso tudo, seja lembrado, gerado pela necessidade de retalhação e queima de arquivo por terem visto neles a fonte de acusação contra os crimes que grassam nessa instituição.


Sai-se da leitura dessas páginas com a convicção, nestes tempos de Cachoeira, de que o estado brasileiro já há muito está falido, loteado por facínoras e pilantras do pior tipo, e que somos pequenos demais e desorganizados demais para termos outra figuração nesta história além de inocentes úteis. Um episódio, entre tantos reportados ali, é revelador quanto aos tentáculos da máfia incrustados na mídia nacional: no auge do pânico, quando os dois sargentos tem o apartamento revirado por um grupo de 15 militares, quando uma procuradora militar faz cobras e lagartos para destruir a vida de ambos, quando a situação oficial que lhes resta é a de foragidos marginais, um programa de televisão finalmente se mostra disposto a ajudá-los. Parece ser a luz no final do túnel. Eles recebem o aval da apresentadora Luciana Gimenez de que serão salvaguardados pela emissora, pois vigorava então o mandado de prisão por deserção contra o sargento Laci, como eu disse acima, e aceitam desabafar sobre o caso na televisão. Mas tudo se revela uma pérfida armadilha, como pode ser visto aqui. A emissora convoca o exército para prendê-los no ar, e a tal Gimenez revela isso para eles na metade da entrevista, como se fosse informada do caso somente naquele instante. Há uma cena tocante de desespero e franco pedido de ajuda por parte do sargento Laci, que assegura que se for preso, eles o matariam; e uma asquerosa interrupção do programa por parte da Gimenez, que é óbvio sabia de tudo e estava ativamente por detrás da entrega dos dois a seus algozes, e que, de forma incrivelmente hipócrita, vai embora pois está receosa com as proporções que a situação tomou.


A matéria na íntegra da Piauí pode ser lida aqui. É uma lição fundamental sobre a falência que o Brasil representa hoje em sociologia, política, estado, legislação, direitos humanos, humanismo, liberdade de imprensa, honestidade e caráter da mídia, ganância das audiências de uma televisão  sobre a qual não existe nenhum mecanismo regulador. É, acima de tudo, um esclarecimento sobre a fachada tosca que se impõem com as cotas e  os remendos do politicamente correto por cima do desgoverno e da barbárie que parecem aumentar a cada dia. Esse texto fala sobre nós.

7 comentários:

  1. Tiro certo: a piauí é excelente; deixar artigos sem ler chega a ser um pequeno pecado, do qual compartilho.
    O brasileiro possui uma tolerância a essas violências a ponto delas se tornarem consensuais. Talvez por isso que a nossa literatura atual, em maioria, seja tão babaca.

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    1. Sua última observação bate por completo com minhas convicções. Você deve ter lido o texto da revista. Pois é mais sarcástico ainda ver que na seção de cartas da Piauí de abril vem a revelação de que a procuradora militar que perseguiu os dois sargentos recebeu, logo após os eventos, condecoração da presidente Dilma.

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    2. Nossos escritores se empenham na questão da divisão entre ficção x realidade. É um trabalho de masturbação; o primeiro verso da Ilíada produz infinitamente mais do que Bernardo Carvalho com seu Nove noites, Cuenca com seu O dia Mastroianni, Marcelo Backes com seu quasememória ou qualquer outra bobagem.

      Quanto à piauí de abril, não tenho ainda. Na oportunidade, vou direto pras cartas. Masoquismo, talvez.

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  2. Ih... Uma vez um cineasta húngaro deu uma sacaneada no cara da Insustentável Leveza etc. relatando um caso demonstrativo da "extrema sensibilidade" do tal escritor quanto às regras opressivas, dizendo que até um sinal vermelho para ele significava interdição comunista...

    Continuo achando que você pega um problema que existe em toda parte e acha que só acontece por aqui. Como se não houvesse corrupção no exércio do Tio Sam e lá os gays podem entrar e sair (êpa!) sem qualquer constrangimento nas tropas que eles usam para matar civis de outras nações pelo mundo afora, a bem do american dream...

    Por sinal, li no New York Times uma matéria que trata justamente dos processos de corrupção inerentes à sociedade, impregnados nela como um sanguessuga. Essa matéria dialoga diretamente com uma crônica do Ruy Castro, em que ele encara como prática basicamente civilizada o fato de que TODOS os restaurantes de Nova Iorque separarem uma contribuição diária que é entregue aos mafiosos locais à guia de proteção.

    O ponto é: a porra do processo civilizatório que nos trouxe até aqui em condições tais que todo esforço que podemos fazer para alterar os codigos vigentes tende a gerar formas autoritárias ou totalitárias de poder. E todo caos converge para um ponto: o lucro. De tanto o sistema crer no conceito de destruição criativa, deixou de perceber que toda sua criação tem como único objeto a autodestruição.

    Consolo: como há reencarnação, voltaremos todos como baratas.

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    1. Nesta reportagem da Piauí há uma comparação da situação nacional do exército e a do exército dos EUA sobre discriminação contra homossexuais. Se não me engano, o exército americano foi obrigado a aceitar homossexuais na corporação já em meados da década de 90. Isso é um avanço incontestável em relação a nós.

      Essa nossa discussão é antiga e eterna. Eu não estou dizendo que a corrupção só existe no Brasil. Eu digo que ela existe aqui num caráter mais idiossincrático. E eu acredito firmemente que é mais produtivo uma visão negativa sobre o país, como diz o Zizék: não acharmos que o mal está em vias de chegar, mas que ele já está aqui, que temos que conter a sua expansão. Mas que o povinho brasileiro é de arrasar, isso é. Mais um exemplo de nosso atraso comparado? Murdoch teve que fechar sua rede de periódicos e se retratar em público por MUITO MENOS que Policarpo Junior fez junto com a Veja nesses últimos dez anos.

      É como um antigo coronel que, por um leve acaso em sua biografia, foi governador de estado, disse: "as crianças inglesas são bem mais inteligentes que as brasileiras: com três anos, já sabem falar inglês!"

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    2. O Exército Brasileiro também não pode refutar gays; os dois acima só são perseguidos porque juntaram o útil ao agradável (ao inverso, é claro): são gays e denunciam corruptos. Mas são sargentos, não recrutas desavisados. Sem trocadilho.

      O trecho "todo esforço que podemos fazer para alterar os códigos vigentes tende a gerar formas autoritárias ou totalitárias de poder" alude basicamente a Zizek e assemelhados.

      Acho que o Murdoch fechou só um de seus diários vagabundos; o grosso de seu império continua a desovar pasquins direitopatas sem fim, a exemplo de seu canal de notícias Fox News.

      A questão da imprensa brasileira é que ela não nasce em paralelo ou devido a livre iniciativa de jornalistas e setores sociais interessados em difundir conceitos ou discuti-los: a imprensa brasileira tem suas raízes no solo burguês, e corta pela raiz qualquer tentativa de iniciativas de contrafação. Se você não sabe, as empresas anunciantes simplesmente não colocam publicidade em veículos de ideias contrárias aos status quo. Há um acordo que integra todas as agências de publicidade e ramos empresariais hegemônicos para não financiar quaisquer iniciativas divergentes. Pega só Carta Capital e vê quanta publicidade tem nela, e compara com a Veja. Se o atual governo fosse como foi o de Efeagagá, a Veja não teria um único anúncio institucional ou de estatais; na época dele, Carta Capital não tinha nenhum. E hoje a Veja reclama que Carta Capital passou a ter, mesmo que menos do que ela. Diz que é uma vergonha o governo patrocinar uma revista "chapa branca". Pode uma coisa dessas?

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    3. Pelo que vi, o Murdoch não fechou apenas um jornal, não. E a moral dele foi execrada no mundo inteiro. Agora continuar a ver a Fox já é um problema do livre arbítrio dos incautos ou estúpidos.

      Eu tenho uma relação em alerta com o Mino Carta. Nas matérias em que sua revista tratou do Marconi, havia muita luva de pelica por ali, um certo medo não disfarçado pelo bufanismo de jornalismo engajado de se bater com uma sordidez política muito bem conhecida. É um homem inegavelmente inteligente.

      Digo muito aqui e continuo: a melhor revista é Le Monde Diplomatique. Praticamente não tem patrocinadores. Eles vivem das assinaturas mundiais e dos preços das bancas. E, recentemente, de forma honrada, passaram a pedir contribuições dos leitores.

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