sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Paranóia da Trivialidade

Comentáriozinho meu postado no blog do amigo Grijó (ipsis litteris opsblog),  para post que trata sobre a dita polêmica em torno do comercial da Gisele Bündchen e as calcinhas e sutiãs da Hope.

O comercial da Gisele Bündchen não tem nada de afrontoso para os padrões das propagandas nacionais. Por que não fizeram a mesma celeuma com os péssimos comerciais de cerveja, que mostram as mulheres em jargões mais aviltantes ainda? Mas acho válido sim que tenha havido, FINALMENTE, uma reação, independente se veio de uma coligação partidária, de grupos geralmente obtusos e desfocados de feministas, etc. A reação, se olharmos os maiores exemplos históricos, quase sempre vem dos locais errados, mas se espalha.

O problema é que não fica rastilhos de pólvora nas manifestações nacionais. Pronto: o MP deu causa ganha à Hope. E o que fazem os protestadores? Se calam? Pois deveriam recorrer a outras instâncias, ou publicar ainda mais sua indignação, fazer mais barulho e tal. Concordo sim que haja controle onde deva haver controle, e propaganda nunca foi sinônimo de manifestação artística ou intelectual. Propaganda é danosa, sempre má intencionada e nunca inocente, por isso deve sim haver censura sobre ela. Diferente de querer se meter numa produção cultural, o que sou contra. Olha o caso do cigarro, e o tanto que diminuiu o número de fumantes depois que proibiu ou controlou efetivamente os comerciais de cigarros. Não estamos mais numa era da infãncia capitalista onde tudo pode ser compreendido e perdoado, tudo pode ser revestido de um humor leviano. O mundo tá na quebradeira e tempos muito ruins vem pela frente, e não podemos mais fingir que interligar os fios para uma real visão do sistema é fruto de exageros ou paranóia. Sou sempre paranóico_ aprendi com Pynchon_ e isso sempre me salva, ou evita que eu caia para um estágio mais fundo do buraco.

Veja só uma pequena correlação com as suas observações deste post: desde quando Gisele é exemplo genético nacional? Uma mulher sem curvas, retilínia, a meu ver verdadeiramente feia. Ela não passa de uma eleita pelo mercado da moda, uma beneficada pela sorte da escolha. Isso é o que mais acontece no meio midiático, não há nenhuma surpresa: enfiam pela guela do vulgo um produto e o vulgo engole como caviar, alicerçado pelas infinitas armas da mídia em dizer, no caso da Gisele, a “espetacular” Gisele, a “glamorosa” Gisele, a “linda” Gisele…e pouco há para não se dar ouvidos para o fato simples de que a Gisele não passa daquela menina de colégio que teve sua vingança de gata borralheira porque ninguém nunca deu moral para ela. E a campanha da Hope a coloca como protótipo da mulher brasileira. Isso é mentira, Grijó. Na verdade, o escândalo maior e mais denegridor para nossa imagem é tão poucas vezes termos feito barulho por causa de umas trivialidades perigosas como essas.

6 comentários:

  1. Eu não me ofendi com o comercial. Quando o vi na TV e ela falou em "bater o carro", logo achei de um mau gosto tremendo. As mulheres têm o maior complexo por essa história de serem péssimas motoristas e alguém faz uma mulher precisar pedir desculpas por isso? Logo se vê que quem pensou no texto foi um homem.

    Acho que de nada adianta fazer protestos se isso não atingir a venda da Hope. Alias, acho que muito mais eficiente do que protestos seria deixar de comprar essa lingerie. Hoje vivemos uma época onde falar mal é melhor do que não falar; toda essa polêmica pode acabar se virando a favor da marca. Prevejo um novo nicho publicitário, onde todos farão questão de provocar alguma minoria, só para conseguir publicidade involuntária.

    Lingerie, por si só, já é algo essencialmente machista. São calcinhas (e soutiens, corpetes, ligas, camisolas, etc) caras, com desenhos específicos para deixar o corpo feminino atraente aos homens. Não consigo imaginar uma maneira de vender esse produto sem ferir sensibilidades.

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  2. Concordo que o método publicitário da provocação possa vir a ser moda, se já não está começando a ser. Mas não acho que o consumidor, mesmo o brasileiro, esteja apto a se prestar a esse fetiche. Há produtos demais disponíveis, marcas em excesso, concorrência por toda parte, e pouca velocidade para que se preste atenção. Os publicitários, que sempre comporam uma classe obtusa, talvez possam fazer o joguete errado, mas vão quebrar a cara.

    E tem o mercado da pirataria, avançado, sofisticado e intransigente: para tudo há um genérico três vezes mais barato. Então, ou a publicidade se esforça para se mediar e se especializar numa linguagem realmente direta com o nicho pretendido, ou a obsolescência de sua mensagem vai sempre se travar com essa noção de visão política ativa que também é moda entre a turma dos moralistas exaultados. Tive que rever meu repúdio diante os politicamente corretos: eles, num cenário ralo, são os únicos que oferecem algum protesto.

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  3. Caramba, minha dislexia me pega sempre nessa palavra: é EXALTADO, EXALTADO, EXALTADO.

    exaltado
    exaltado
    exaltado
    exaltado
    exaltado
    exaltado

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  4. Agora q tou entendendo o q é dislexia, achei q era tipo uma distração, mas coloquei na wiki e entendi.

    Eu acho a Gisele bonita, não um parâmetro de beleza, mas nunca feia. Qto a ser representativa da mulher brasileira, bom, isso é muito vago né. Só uma propaganda consegue vender uma ideia dessas. Enfim, é o q fazem as propagandas, dizem q o OMO lava mais branco. Assunto tão chato quanto o meu comentário.
    [mas q não deixa de ter um fundo sério, como hj tudo parece ter. tomar partido, escolher posição. ok. agora, tu tocou no ponto essencial: até onde? até quando? as últimas consequências estão cada dia mais distantes - comentário chato, eu disse]

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  5. Escrevi um texto sobre o assunto. Minha preocupação é com a sujeição da inteligência ao método publicitário de cativar pelo estereótipo e zelar pela manutenção de padrões culturais de baixa eextração, machistas, mas não só: sobretudo consumistas. Uma sociedade voltada para o consumo, em pensar nas consequências, ou pensar apenas em uma, o estouro do cartão de crédito. A Gisele é bonita, mas muito magra. 90% dos homens não gostam de mulheres assim, só dizem que gostam. Mas a discussão não é essa, e o fracasso na ação contrária à divulgação da peça publicitária, ademais tão ofensiva, como você assinalou, às horrendas propagandas de cerveja, só demonstra como o capitalismo prefere as pessoas: autoestereotipadas e voltadas para o consumo de seus produtos. O resto é gente pensante, e a publicidade não é feita para elas, mas para aqueles que não devem e não podem pensar, o que exige uma publicidade sempre pronta e atenta para impedir que tal coisa aconteça. O êxito é cada vez menos, acredito.

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  6. Li seu post e me inspirei nele, Rachel.

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