sábado, 15 de outubro de 2011

Anotações para Um Romance (Panorama 17)


De dentro do ônibus amarelo que o pegava todas as manhãs a oito quadras de casa e o levava ao presídio estadual, Eme Skhola olhava a paisagem da cidade converter-se na desolação do deserto e pensava mais uma vez, sem muita convicção, em dar uma reviravolta em sua vida. Sair das fases cronológicas das doenças crônicas da negação, a esperança de mudança, o esquecimento, e, por final, a aceitação resignada. Quando entrara para o serviço de vigilância estadual de sentenciados judiciais, o álibi diante a violência auto-imposta era que breve se veria livre daquilo. Estava tão certo que se tratava de mais uma de suas fases passageiras, que instalava-se protegidamente afastado observando seu corpo movendo-se de um lado para outro, cumprindo a rotina de abrir e fechar cadeados, acompanhar os pobres diabos da cela à sala dos advogados, e ficar sentado numa cadeira cuja atração inexorável para deixá-lo parecido com as silhuetas dos guardas dos filmes de cinema carregando uma Winchester calibre 22 a inclinava de encontro ao pilar da guarita de observação, enquanto seus olhos por detrás de enormes óculos Ray-Ban, narcotizados pela modorra da tarde, diligentemente pousavam-se por sobre os detentos do pátio. Era uma dessas crenças não de todo desprovida de intuição metafísica, de que algo zelador para que sua biografia se ajeitasse à harmonia nostálgica da primeira parte de sua existência, intercederia em seu benefício_ uma confiança que se alguém lhe dissesse ser da mesma procedência das que determinam que um bêbado trançando as pernas pelo meio de uma rodovia cause um acidente em série com vítimas fatais e feridos graves, mas que a ele nada acontece, um mínimo arranhão sequer, ele acreditaria. E agora, depois de ter se resignado a deixar passar possíveis chances de desistência, não sabia mais em que fase estava. A desgraça da mente esclarecida_lhe dizia Trimon Lipisto, seu estepe de guru oriental _ era que se tornava impossível se confortar com a ideia de se esconder por detrás da inércia. Mais cedo ou mais tarde, os vetores da grande convolução do universo lhe caiam em cima, o levando de roldão sem considerações ou delicadezas. A inércia não existe, meu caro Skhola, lhe dizia Lipisto com uma concisão atormentada depois de tentativas de enrolar tudo numa sequência mal arranjada de parábolas onde o colibri acabava por não levar a fração significativa que acabaria com o incêndio na floresta, compensando por lhe revelar um tom estranho de azul que circundava em sua áurea, ou que sempre que Eme chegava ao galpão da estação de ferro abandonada que lhe servia de escritório havia uma insistência curiosa de se deparar com números múltiplos de 21. Eme se julgava escolado demais em premonições para não levar tão a sério o tom esfumarado de David Carradine na voz de Lipisto, mas seu débito por ter desconfiado que Eike e ele tivessem tido um caso, o levava a ao menos considerar uma honestidade maluca_ mas não menos honesta_ naquelas intenções. Partia da prerrogativa de que, se fora ingênuo o suficiente para acreditar, por um curto período sequer, que sua companheira de vários anos poderia se interessar por um letárgico magricela quase sem substância, poderia, então, numa estranha contrapartida lógica, também não estar dando o real valor devido ao que esse mesmo magricela lhe alertava. Ainda mais quando havia mesmo uma prefiguração diferente e não com genuínas boas intenções envolvendo sua esfera de percepções diárias, como as tendências do dial do rádio de seu carro_ quando atravessava os limites da cidade, exercitando brincadeiras de fuga_ que mantinha religiosamente afixado à estação do jazz mortal de San Juan, passava a tocar, depois de uma reavaliação rápida sob a qual era como se alguém indefinido estivesse coordenando acima da estática, o Princípe Kalender, de Scheherazade, de Romski-Korsakov, o violino cabriolando por sobre ondulações escorregantes de seda, arregimentando a força dos trinta instrumentos da orquestra na exibição do tema e era necessário apenas um microssegundo para sentir uma agulha descendente de gelo passar por suas costas, ao lembrar que era a peça preferida de Eike. Ou quando, nos domingos em que voltava da casa do velho galpão de Trímion Lipisto, rodando o volante numa subliminar distração em misturar a paisagem das ruas periféricas das quais todos fugiram para o abrigo televisivo, com seus pensamentos cada vez mais distantes, deparava-se parado com o carro diante uma praça deslocada do tempo e da geografia, cuja imobilidade do enrodilhado de arbustos e das sombras por sobre os bancos de madeira adensavam uma desolação em que parecia ecoar um clamor ancestral, como se entrasse sem querem em assuntos ferrenhamente velados à observação alheia, mas cujo simples contemplar o obrigasse, por conseguinte, a parar para tornar-se a par de tudo, uma maçonaria de antiquados gestores de poderes secretos. De dentro do carro, então, vinha-lhe  a certeza de que se averiguasse a tábua da velha gangorra do playground tomado pelo mato, veria seu nome inscrito em desajeitadas linhas riscadas a prego. Dava a ré e saía dali com o coração disparado, sabendo que não teria coragem de abrir a porta e sair, e que tanto melhor porque, por mais que quisesse achar novamente aquele lugar, jamais o encontraria, mesmo que peregrinasse por todas as ruas da cidade por todos os anos que lhe restassem.

2 comentários:

  1. É interessante, mas não é possível comentar sobre um texto que faz parte (ou fará parte) de um romance. Você também fará um glog para publicar o livro inteiro?

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  2. Penso que não, Rachel. Talvez tente o caminho convencional.

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