sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Panorama 17


Olhando em retrospecto, Eme Skhole pensava que poderia ter lido os sinais do que estava por acontecer, desde antes da segunda-feira na qual seu chefe imediato lhe mostrara o memorando instituindo que ele deveria escoltar oito detentos de confiança para prestar serviços na construção do Panorama 17. Tudo que envolvia seu desarvorado horizonte de repetições adotara um comportamento baseado em uma estranha lógica própria_ para não dizer sinistra_ , não só no modo em que sua namorada Eike  passara a se sentar no sofá, de tardezinha, com uma tigela de morangos forrada com creme de leite até a tampa, disposta a consumir displicentemente todo o lixo letal da televisão hipocondríaca do velho México, mas também na forma em que passaram a agir os ornamentos da realidade até então limitados ao simples cumprimento de seus prosaísmos cotidianos: semáforos com algo da incisividade fria do olho observador, campainhas soando não mais tão inteiramente desoladas nas manhãs quentes de abril em que parecia haver um esquema final para onde todas essas informações se dirigiam afim de serem catalogadas e avaliadas. A iluminação inútil depois que o perigo fora efetivamente alcançado. 

            Eme já havia prometido a si mesmo largar aquele emprego no C.I.D.S. (Colônia de Internação de Detentos Sentenciados) que vinha mantendo há três anos. Nas horas vagas pressionava o amor-próprio a ir atrás de algo que  fosse menos afrontoso a seu espírito. Visitou lanchonetes de beira de estrada, mas os largos balcões lustrados com creosoto fórmico rescendindo desde a entrada o desmotivaram. Falou com antigos conhecidos de épocas que pareciam ter sido da adolescência de outra pessoa, sujeitos hoje vivendo de serviços insubstancias formalmente ilegalizados, mas a única coisa que o animou por um momento fora uma mecânica de caminhões pesados debaixo de um dos quais despontara em um carrinho de rolimã um senhor calvo, com uma barriga que era um prognóstico fatal, e que só quando lhe perguntou sobre sua experiência em lanternagem de Mercedes 49 viu que se tratava de um campeão do pólo do antigo e já falido Colégio Provençal que frequentara há tanto tempo. Chegava em casa no final da tarde visivelmente abatido para conseguir não envolver Eike nessas alucinações espirituais. “Todo mundo já está velho demais”, dizia, com um sorrisinho nervoso humoristicamente desamparado. Eike tinha o senso de maternidade desenvolvido o suficiente para deixá-lo em paz, e nisso acabava por cometer a inversão descuidada em não prestar atenção a pequenos detalhes que potencializavam a sua dor. Em seu respeito ao que possivelmente julgava ser, em uma hipótese positiva, uma fase de crescimento filosófico cujos resultados finais seriam benignos e pelos quais seu namorado imaturo deveria passar, acabava por relegar o próprio conhecimento do quanto era delicada tal imaturidade para deixá-lo completamente sozinho nessa. “É como se tivesse havido outra guerra e eles todos tivessem voltado mutilados, não só corporalmente, mas em seus caráteres e em suas sensibilidades”, era o depoimento que Eme fazia à mesa do café, ou nas variações que continuava a se ver em sua cara concentrada atrás da ponta de laranja intenso do cigarro da tarde, quando ainda podia se dar ao luxo de falar essas coisas a Eike. Ela lhe incentivava a deixar aquilo; eram épocas da última educação afável entre os dois, em que os diagnósticos estavam em oferta pelo ar e ela os via com igual clareza quanto ao número de quadradinhos no Banco Imobiliário, os quais o dado determinava ter que atravessar para adquirir todas as indústrias e casas populares em miniatura; tratava-o como seu amante irresponsável, com uma espécie de romantismo decadentista de que apesar de tudo ele era o homem que amava, o homem com quem compartilhara um invólucro de tempo com detalhes inapreensíveis valiosos demais para não tentar até o último recurso ganhar o jogo. Trazia panfletos de lojas de repartição e fingia esquecê-los por cima da mesinha da sala, já sabendo que a moça radiante de beleza que aparecia ao lado da lavadora de roupa causaria repúdio em Eme, rindo por detrás da sua crônica preocupação em não ver mais recursos o quanto ele desprezaria ter que usar um uniforme da Wal-Mart, aquelas costurazinhas em relevo no bolso da camisa demonstrando o quanto atingira um  nível sub-humano de subserviência. Comprava-lhe revistas de Mecânica Popular, numa nova edição em espanhol, e lhe entregava, para fazê-lo voltar a falar sobre seus planos de abrir uma prestadora de serviços em retífica de motores. Eme as folheava com a antiga paixão renovada, com um fervor juvenil que o fazia falar que aquilo estava realmente certo, o motor de quatro mil rotações poderia ser aberto com uma coverneta tamanho 23 com embocadura de cone estrado, mas como eles permitiam que um idiota de que provavelmente não sabia trocar uma borracha do cebolão escrevesse que o pistão de um Volskvagem 76 tinha que ser lubrificado com óleo diesel azul supersaturado? Mas a verdade era que Eike sabia que Eme já estava  além de qualquer resgate humano, alguma coisa de muito solene havia ocorrido em sua máquina pessoal_ para usar uma metáfora condizente_ nesse meio tempo em que se deixara prostrar e perder a adrenalina de seus mais antigos sonhos . De algum modo sua abstinência em agir era uma tensa condição de rebeldia de alguém cujo ultimato da mudança já fora promulgado para uma sentença da qual não poderia escapar. Mas não havia como fazer com que Eike compreendesse isso, essa súbita lucidez impactante ao meio dia, essa adstringência espantosa de enxergar por debaixo do grande tapete universal para onde se varriam constantemente os escombros do que eventualmente entendia-se como sendo a verdade.


5 comentários:

  1. Isso aqui é muito bom! Me explica de novo por que não estamos lendo você na prensa? Se se trata mesmo de uma possível primeira página, que início contundente! Omnious!

    O equilíbrio de imagens aqui entre o mundo interior e exterior do personagem é perfeito:

    "Eme as folheava com a antiga paixão renovada, com um fervor juvenil que o fazia falar que aquilo estava realmente certo, o motor de quatro mil rotações poderia ser aberto com uma coverneta tamanho 23 com embocadura de cone estrado, mas como eles permitiam que um idiota de que provavelmente não sabia trocar uma borracha do cebolão escrevesse que o pistão de um Volskvagem 76 tinha que ser lubrificado com óleo diesel azul supersaturado? Mas a verdade era que Eike sabia que Eme já estava além de qualquer resgate humano, alguma coisa de muito solene havia ocorrido em sua máquina pessoal_ para usar uma metáfora condizente_ nesse meio tempo em que se deixara prostrar e perder a adrenalina de seus mais antigos sonhos . De algum modo sua abstinência em agir era uma tensa condição de rebeldia de alguém cujo ultimato da mudança já fora promulgado para uma sentença da qual não poderia escapar."

    De um pessimismo trágico, porém não obsequioso. Não sei mais o que dizer além de, por favor, nos permita ler mais sobre o destino prescrito de Eme Skhole.
    Inveja.

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  2. Luiz, obrigado, cara! Acho que já dei todos os indícios de que publico aqui esses excertos de minha produção pessoal não para angariar elogios, mas para, principalmente, ver essas passagens através dos olhos alheios. Quando eu era solteiro e morava sozinho numa casa, julgava que os poucos móveis e a organização idiossincrática era o que havia de mais confortável, mas uma vez levei para dentro daquela paredes invioláveis uma namorada que, de imediato, me fez ver, em silêncio, o quanto a coisa era baguncenta. A simples exposição desses textos aqui já me educa sobre eles, uma vez que retirei-os da gaveta e coloquei-os sob a violência dos ares não condescendentes.

    Já tenho esse romance aqui, algo próximo a estar pronto. Deu quase 200 páginas, e, realmente, acho que está bom devido à carga de paixão e interação que dediquei a ele. É uma história picaresca, mas com fundo sério, com cinco personagens além de Eme e Eike. São cinco detentos que são levados para um lugar desconhecido, para trabalhar em algo que não lhes é permitido saber, a mando de um empresário onisciente que detem vários negócios que se inserem no dia-a-dia que Eme vai descobrindo aos poucos. Há também um guru de nomes Trimion Lipisto, que participa erraticamente do enredo. O nome Eme Skhola, julgo ter sido um achado, que aproveitei de conceitos de A Condição Humana, de Arendt. Mas ainda há muitos pontos de descontentamento que quero eu ser capaz de consertá-los.

    (O principal é poder retornar a esse post sem o constrangimento de novas leituras. A maioria dos meus textos, não consigo voltar a lê-los, nem ao menos me aproximar deles. Não é modéstia, mas uma sincera e às vezes producente arrogância de leitor exímio auto-consciente.)

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  3. Hum. Lembra o enredo de Os Prêmios, que, não sei porque cargas d'água, você não gosta. Sei que o que vou te pedir é impertinente, afinal, por mais que tenhamos trocado impressões várias aqui nessa caixa de comentários, você não me conhece, não realmente.
    Gostaria de lê-lo quando terminar se isso não for demasiado. Afinal, não confio que você esteja fazendo do lado daí tudo ao seu alcance para publicar as suas coisas.
    Mas vou aceitar resignadamente um não. Nada muda. Pode ficar tranquilo.
    E você sabe que os elogios que deixo aqui não são vassalagem da minha parte ou condescendência. Você especialmente tem experimentado o leitor chato que eu sou. Vício de exegeta que não sai de mim.

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  4. Quando estiver PRONTO(a caixa alta é enfática do tipo de esforço que sujeitarei a mim mesmo), te envio, mas creio que isso possa exigir no mínimo mais um ano pela frente. Terás tempo de se desestimular até lá.

    Quanto à publicação, me sinto privilegiado por isso não me passar pela cabeça, por não ser uma obsessão. Gosto mais dos autores tardios, como Saramago, e o próprio Cortázar publicou já na meia idade. Claro que o destino último é publicação, mas, let it be...

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  5. Não tem nada de Cortázar neste. Mas Pynchon e alguns intrusos que vieram sem ser convidados com insinuações de assobios discretos, como Joseph Heller e Michael Chabon.

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