sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Grande Reacionário

Figura curiosa esse Allan Bloom. Não é por menos que seu livro O Declínio da Cultura Ocidental tenha ainda tantos leitores, que se convertem, com alguma ou outra reserva, a seu posicionamento excentricamente conservador. Sua ousadia em falar sem prestar-se a dar vênias às modas intelectuais, sem ligar a mínima pela carência de amor por detrás de todo debatedor dos problemas correntes, dá aquela sensação reanimada de que enfim, nos deparamos com a coisa genuína, com alguém que detem o cerne da questão. 
Gay, uma das primeiras ou segundas figuras públicas a contrair a AIDS; professor que tinha o talento excecional de converter seus alunos em apaixonados devotos capazes de lhe dedicar a vida; um polemista cujo ar de desentendido que deixa cair a gimba acesa sobre o telhado de palha o ascendeu ao nível de inimigo mais odiado do meio acadêmico norte-americano dos anos 1970, Bloom era um dos raros intelectuais daquela época epicênica dos pensadores estrelas, que apareciam diuturnamente nos programas de auditório para dar o veredicto definitivo sobre a situação política mundial e o grau de exigência espiritual do império, que realmente possuia uma cultura quase infinita, e um entendimento da corrupção dos valores da modernidade que o permitia distinguir com um olhar cheio de graça a ira vazia dos teóricos de ponta. Sua biografia escrita alguns anos após a sua morte pelo grande amigo Saul Bellow mostra o quanto a simplicidade do senso de auto-segurança era algo de extremo valor para ele, como seu amor-próprio era inabalavelmente desprovido das vaidades mundanas que não estivessem diretamente ligadas às suas altas necessidades estéticas. Escandalizava socialites da cultura ao tomar coca-cola pelo bico da garrafa à mesa do jantar. Quando era apenas um professor iniciante, vivendo na expressão conhecida "da mão para a boca", mostrava-se o quanto a pobreza não lhe tocava ao impressionar os amigos que lhe hospedavam com sua invariável atitude de gentleman. E quando seu grande livro vendeu um milhão de exemplares, encomendava os melhores ternos e sapatos, mandava vir de todos os cantos do mundo CD´s de música clássica, ficava no centro de uma aparato tecnológico instalado em seu apartamento de onde enviava suas requeridíssimas impressões sobre as notícias mais quentes da política e literatura. Torrava montes de dinheiro sem correlações do dissolutismo do pessoal da mídia, da mesma forma que passava as noites nos sofás dos amigos sem que isso debilitasse sua condição de intelectual de meia idade sem um puto no bolso. 
E seu livro, seu livro enorme e fundamental, é o reflexo fiel de seu espírito: a mais eloquente, genial, afiada e imbatível cobrança pela restituição dos valores morais e espirituais da humanidade, uma apologia ácida à supremacia do intelecto cujas corporações da burocracia cívica, a indústria cultural e as universidades obnublavam. Em plena era dos megafilósofos que se investiam de revisionistas dos fundamentos da justiça social, como Foucault e Norbert Elias, Bloom se voltava com uma energia viril para os gregos, para Rousseau e Nietzsche, para a defesa da família e do senso do sagrado, por uma religião identificadora no mais alto nível de uma sociedade humana. Qualquer um outro exageradamente preparado teria sucumbido facilmente à ingenuidade dos símbolos arcaicos dos reis filósofos, mas Bloom falava de Mick Jagger, das revoltas estudantis, dos Panteras Negras, do Homem Econômico, com uma sofisticação e molejo de marujo experiente que o aproximava das massas de insatisfeitos desligados e suficientemente desconfiados do clero universitário. Sua extrema assimilidade era mais competente que a filosofia para o povo de Karl Jaspers, e sua crítica ao niilismo industrial faz par à enorme acusação de Adorno como uma espécie de complemento de um nativo do entretenimento cultural do Império.

O Declínio da Cultura Ocidental torna-se ainda mais essencial nos dias atuais em que a mesma revista eletrônica que alude a uma descartabilidade de Ernesto Sabato entroniza Charlie Sheen como o grande contestador da hipocrisia do Império. Homossexual que sempre levou sua vida como quis, nunca se prestou à combatividade de uma causa que sua liberdade já tinha por ganha, e dificilmente aprovaria a imposição da homofilia que quer-se fazer nas escolas brasileiras, provavelmente indo além ao acusar os marionetes do politicamente correto por se submeterem a arranjos que tem muito mais de joguete político do que de preocupação social sincera. Ele nunca professou a música do lamento, sua visão do caos da modernidade era tão altiva que por vezes se faz crer que seu módulo espiritual era a de um Oséias graificado por seu prêmio do esclarecimento divino. Sua intenção satisfeita era, nas palavras de Bellow, "a redescoberta da magia do mundo sob os escombros das ideias modernas."

6 comentários:

  1. Puta merda, nem li, mas vou te dizer, Charlles, và à merda, depois de dias sem escrever porra nenhuma você vai publicando uma fieira de coisas compridas?! Ah, vá te catar por hoje!

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  2. O que me faz pensar se Ravelstein merece os aplausos e laudos todos da crítica ou se o romance vampiriza da estatura intelectual do Bloom, esse nabi moderno como o seu texto quer dissuadir.
    Comecei a ler o Ravelstein com um certo entusiasmo, por se tratar de uma cifra a A. Bloom. Mas as referências no início da novela ao Michael Jackson, ainda que marginais, foram brochantes.
    Acho temeroso confundir o apelo antimodernista com um nabiismo que quer expurgar o nosso mundo da sua artificialidade, robotismo, insufrando corpos inanimados com o espírito, tal qual, sei lá, a cena dos vales dos ossos secos em Ezequiel.
    Às vezes o discurso antimoderno é só retrógrado mesmo... e awkward... e anacronista no pior sentido do termo.
    E me aproveito da amizade que, gosto de pensar, a gente já compartilha, para perguntar:
    Homifilia nas escolas brasileiras? (Fiquei um pouco desapontado)

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  3. Você não está acompanhando as polêmicas do Brasil daí, Luiz? Há um projeto em curso do ministério da educação, com filmes e panfletos, a ser distribuido nas escolas, em que faz uma apologia mais que discreta da homossexualidade, afim de dar a chance à criança de identificar-se precocemente e "sem traumas" numa categoria sexual. Algo realmente fora de propósito e que só faz aumentar a homofobia. estou sem tempo nessa sexta-feira à noite de relaxamentos para ir a fundo na questão. Claro que compartilho com a defesa e direitos da homossexualidade, mas acontece o mesmo princípio que nós vemos nos blogs ptistas de manipulação da opinião das massas para interesses particulares de políticos.

    Allan Bloom é muto válido, leia seu livraço! É uma maravilha mesmo. Também tenho minhas reservas ao livro de Bellow, mas lembre-se que é um relato fiel e mesmo apaixonado de um senhor que já havia dobrado a linha dos oitenta anos.

    Ah! Muito me agrada o reconhecimento de nossa amizade. Fale na cara o que quiser dizer. Você está na vantagem, pois daqui é um pulo para ir matar o Nunes.

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  4. Vou me aproveitar que o seu texto, multilayered como de costume, fala tanto de Ravelstein, como de Declínio da Cultura Ocidental, quanto de Allan Bloom na figura de homosexual-modelo e da controvérsia envolvendo esse arremedo de ultra-direita que surge no Brasil e o Ministério da Educação, para, haphazardly, falar sobre tudo isso um pouco.
    Primeiro é preciso largar de mão a premissa de que termos como homofilia não carregam em si nenhum vetor ideológico, de que é mero jogo filológico, uma brincadeira etimológica onde a soma de prefixo e sufixo tendem a chamar à vida significados latentes mas não mais empregados de palavras.
    Homofilia finge ser a antípoda de homofobia, um estado de coisas que reage ao primeiro, mas que exagera no seu amor e apologia ao homosexual.
    Eu coloco essa distinção na conta do nosso tradicionalismo todo típico. Esse mesmo tradicionalismo que não entende bulhufas que existe de fato uma política sexual e que o desenho do campo dessa política não tem vários atores, mas essencialmente e historicamente, apenas dois lados, aqui o do anacronismo e ali o de sujeitos históricos concretos que lutam ainda hoje contra não só o preconceito mas contra as vicissitudes e violência da heteronormatividade.
    Cara, releia os textos jornalísticos do chamado Civil Rights Movement. Não há exagero algum na comparação das vicissitudes vividas nesse período obscuro da história com os struggles de gays e lésbicas em todo lugar em virtude do medievalismo reinante.
    São sujeitos que vêem a sua subjetividade negada na esfera pública, como os atores do Civil Rights Movement. Sujeitos que vêem o exercício de sua cidadania e direitos civis mais básicos, como a união civil, obstruídos, como no Civil Rights Movements. Sujeitos que têm a sua subjetividade ou obliterada ou vitimizada por inúmeras estratégias de fetichização e do estereótipo – como não traçar a comparação entre o estereótipo Uncle Tom/nigger com o abrasileirado “bichinha”; tirante às circunstâncias históricas próprias de cada um dos estereótipos, “bichinha” também não fetichiza, diminuí, neutraliza pela estratégia de tomar posse de uma subjetividade que não nos pertence, desqualificando-a, banalizando-a? E as batidas policiais a bares GLBT nos anos 60? E o Stonewall Inn? O que dizer das dezenas de homosexuais anônimos que apanham e perdem a vida na Paulista?
    Cara, tá claro que a campanha do Ministério da Educação, combatida com técnicas covardes de guerrilha pela ultra-direita, nada mais é que, para além de uma cartilha de educação sexual onde a criança gay se reconhece, um antídoto que visa matar os anticorpos da homofobia que naturalmente são inculcados nas nossas crianças pela nossa horrorosa cultura da heteronormatividade.
    Eu poderia citar para você uma multidão de estudos (sociólogicos, antropológicos e da nova ciência cognitiva) que amparam aquilo que o senso comum mesmo já evidencia - quer dizer, que a experiência de se conhecer como fora do eixo heteronomartivo é experimentado bem cedo pela criança. Adiantaria também somar o exemplo de gays ilustres como Y. Mishima, que no seu autobiográfico romance Confissões de uma Máscara narra a primeira experiência homosexual de auto-erotismo nos seus sete anos ao folhear em um livro uma gravura Renascentista de um imberbe e helenístico desnudo São Sebastião?

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  5. Os vídeos e as imagens apresentadas na tv deste projeto são de péssimo gosto e muito esteriotipadas, Luiz. Submetidos a grupos testes de adolescentes por algumas emissoras, as opiniões foram muito negativas. O garoto homossexual é posto como um insurgente travesti, cabelos tingidos e pulôver em torno do pescoço. Um pronunciamento jocoso do secretário de educação revela o quanto foi leviano e entregue aas pessoas erradas a confecção do empreendimento. O secretário faz chacota ele mesmo do trabalho. Não acredito que conflitos sejam resolvidos desta forma, aimda mais num país como o nosso e no terreno mais precário de nosso estado como é a educação. Creio que a solução seria uma lei rigorosa contra discriminação e acompanhamento eficaz de psicólogos e especialistas nas escolas, mas não um tratamento generalizado que causaria mais confusão e desserviço. No Canadá isso muito provavelmente teria um efeito diferente, creio que mais eficaz do que aqui. Veja os noticiários de hoje: na Grécia, passeata dos jovens contra a política econômica; na tcecoslováquia, passeata contra cortes do governo; na Geórgia, passeata para uma mais ampla e ficaz política econmica; no Chile, passeata contra a depredação da Patagônia ameaçada por construção de hidrelétricas; na Espanha, passeata contra o desvirtuamento ideológico dos partidos políticos; e no Brasil? Passeata dos jovens, com bastante quebra pau, para a LIBERALIZAÇÃO DA MACONHA!

    O Brasil é todo anacrônico. Sou amplamente motivado a participar de discursos sérios sobre direitos dos homossexuais. Mas isso que se propõe aqui é, no melhor dos casos, irônico, no pior, hipócrita.

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  6. Ah, Luiz. Já estou na metade de A Vida Breve. Maravilhoso! Muitas anotações feitas e ideias às mil.

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