quinta-feira, 28 de abril de 2011

Editando seu Autor Preferido, por André Conti




Para quem gosta de livros, há algumas vantagens inegáveis de se trabalhar numa editora: acesso a manuscritos inéditos, notícias direto do front, a possibilidade de dar pitaco no texto dos outros. Mas, como em qualquer trabalho, isso rapidamente se torna parte do dia a dia, e não estou dizendo que você fica insensível nem nada, apenas cria uma relação diferente com tudo que diz respeito ao livro.


Há uns três anos, quando eu acreditava que essa couraça estava mais que consolidada, a Ana Paula, nossa diretora de direitos estrangeiros, deixou um singelo presente em minha mesa. O tijolo, de mil e tantas páginas, era todo branco, com um detalhe em marrom na capa, e quando vi de longe bateu um temor. Fui até a mesa pensando que não queria editar o Corão, a Bíblia, nada disso, já tenho problemas demais. Todavia, era de fato um presente e tanto, a edição antecipada de Contra o dia, do Thomas Pynchon, que seria lançada no mês seguinte nos Estados Unidos.


O livro tinha sido anunciado pouco tempo antes, num release escrito pelo próprio Pynchon, onde ele prometia um elenco de “anarquistas, balonistas, apostadores, magnatas corporativos, entusiastas das drogas, inocentes e decadentes, matemáticos, cientistas loucos, xamãs, físicos, ilusionistas, espiões, detetives, aventureiras e assassinos profissionais. Com participações especiais de Nikola Tesla, Bela Lugosi e Groucho Marx”.


Como tudo que diz respeito ao autor, o release veio coberto de mistério — primeiro subiu num site, depois foi tirado do ar, voltou, e só então confirmaram que havia sido escrito pelo próprio Pynchon. Terminava assim: “Enquanto isso, o autor faz o de sempre. Personagens param para cantar canções, em sua maioria estúpidas. Práticas sexuais estranhas acontecem. Idiomas obscuros são falados, nem sempre idiomaticamente. Ocorrências contrárias aos fatos ocorrem. Se não é o mundo, é o que o mundo seria depois de uns ajustes. Segundo algumas pessoas, esse é um dos maiores propósitos da ficção. Que o leitor decida, que o leitor tenha cuidado”. Recebi o release pelo mailing PYNCHON-L e entrei num processo imediato de autocombustão.


Cabe dizer que os fãs do homem são bastante organizados: há o mailing (que existe desde 1993), e também diversas enciclopédias e glossários, com listas de personagens, temas, referências, tudo. E tem o sujeito que fez uma ilustração para cada página do Arco-íris da gravidade (são quase oitocentas). Mais: os sete romances foram anotados à exaustão por uma rede de comentadores, e há índices, listas de discussão, não acaba nunca. Como os livros são coalhados de alusões históricas, fatos obscuros, conhecimentos arcanos, fórmulas matemáticas, princípios físicos e (inúmeras) canções obscenas, é preciso um exército de gente para esmiuçar as citações e referências. E a cada lançamento essa comunidade se mobiliza, troca notícias, mapeia as livrarias que vão abrir as vendas à meia-noite. Harry Potter para assinantes da Barsa.


O último livro dele, Mason & Dixon, tinha sido publicado onze anos antes, em 1997. Mas eu só fui saber da existência do Pynchon no ano seguinte, quando saiu a tradução do Paulo Henriques Britto para o Arco-íris da gravidade, romance de 1973. Li por conta de uma resenha, meio no escuro, e fiquei doente. O livro era tudo que o resenhista dizia: engraçado, enciclopédico, necessariamente longo, intricado (são mais de quatrocentos personagens, e sabe-se deus quantas vozes narrativas), profundamente estranho e incomum.


Mas havia algo a mais ali, para além do mar de referências e da bossa formal. O livro era acima de tudo comovente, e o humor e o absurdo e as conspirações e as músicas tolas serviam, no fim, para falar de Temas Grandes, de coisas comuns a todos nós — morte, vida e o que está no meio—, e de certas mudanças nas pessoas e no mundo que raramente percebemos, e que quase nunca os escritores conseguem registrar em prosa. Era o livro mais ambicioso que eu já tinha lido, no melhor dos sentidos, o mais bonito e, com certeza, o mais engraçado.


De modo que, entre o Mason & Dixon e o Contra o dia, eu já estava convertido. Tinha assinado o mailing, lido as anotações da comunidade e acossado estranhos na fila do quilo, com teorias sobre a procedência do frapê de banana. Ler o Contra o dia um mês antes não significava, portanto, vantagem sobre os outros fãs, apenas diminuía um bom tempo de espera e ajudava com as minhas questões de ansiedade. Que baita presente foi aquele. Resolvi guardar para quando chegasse em casa (era sexta), e dei só uma espiada na epígrafe: “É sempre noite, do contrário a gente não precisaria de luz — Thelonious Monk”. Foi o momento de um telefonema bastante emocionado e, em retrospecto, constrangedor, para a Ana Paula.


Mas foi só depois de ler e gostar demais do Contra o dia que caiu a ficha: eu ia editar o bicho. Mesmo sabendo que contaria com uma vasta rede de colaboradores (o meu alô ao bom povo da Pynchon Wiki), e com a tradução do Paulo Henriques, confesso que deu medinho. Não que você não vá caprichar nos seus outros livros, longe disso. Mas estávamos falando do meu autor favorito, e eu queria fazer direito. Pior que insisti para editar, numa clara alusão ao quarto provérbio dos paranoicos, do próprio Pynchon: “Paranoicos não são paranoicos porque são paranoicos, mas porque sempre se colocam, os imbecis, deliberadamente em situações paranoicas”.


Adiei a ansiedade durante a tradução. Depois, apareceu o Vício inerente, que acabou sendo lançado antes. Embora seja um livro excelente, não tinha o escopo do Contra o dia, e a edição correu com incidência mínima de lágrimas. Com a tradução do Paulo entregue, ainda foi-se um bom tempo nas mãos do preparador de texto, e mais o meu trabalho em outros livros que vinham antes na programação. Mas o Contra o dia está marcado para o segundo semestre, então precisei começar agora a leitura.


Entre ontem e hoje, passei pelos dois primeiros capítulos e lembrei exatamente por que gosto tanto do Pynchon. As tramas foram voltando e o fio condutor — uma saga familiar que, na falta de uma palavra melhor, é um bocado contundente — já começou a se insinuar. Como é um clássico moderno, ou pelo menos eu acho, não fico com muita vergonha de já roubar assim na segunda coluna. E vou passar um tempo nisso, então é provável que volte ao assunto. Não é sempre que a gente edita o livro favorito do autor predileto. Bivér.

* * * * *

André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
Ele contribui para o blog (da Companhia das Letras) com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

(Roubado do site da Companhia das Letras)

3 comentários:

  1. Gostei mesmo foi do final: "Roubado do site da Companhia das Letras". Tremenda declaração de honestidade intelectual, com tanta gente surrupiando textos alheios, montando até livros, adquirindo fama e fortuna, etc. Mas ler Pynchon não parece uma coisa assim como conversar num esrtádio de beisebol enquanto se lê uma revista em quadrinhos da Marvel e se vê surpreendido com reflexões acerca da física quântica?

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  2. Hahahaha. Mas combina ouvindo com Frank Zappa.

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  3. Charlles,
    esse post gerou isso...



    NAVIOS
    by Ramiro Conceição


    Na tempestade
    sobre a cidade,
    havia muitos artistas
    com coragem, na via.
    Na paisagem,
    eram navios
    cheios de vida,
    de passagem…

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