terça-feira, 15 de março de 2011

Resiliência



Passa-me pela cabeça um misto de perplexidade e a sensação de que a história nos prepara para os  círculos de convolução que, coincidentemente, acontecem no início de cada século (lembrando da gripe espanhola do século passado, etc). Estou re-transitando pelas zonas íntimas do inferno lendo "Mente Cativa", do Czeslaw Milosz, o reencontrar da frase que o poeta polonês ouviu de um colega: "não há nada dentro do homem. Somos vazios." Há relatos ali que amparam esse nosso vazio, ocasionalmente preenchido pela besta. Uma mulher que, assim que é descarregada junto a seu filho em Auschwitz, foge da criança, que corre-lhe atrás   gritando: "mamãe, mamãe, não fuja de mim". Ela percebe que só sobrevivem as solteiras, que as mães e seus filhos são imediatamente executados pelas forças nazistas. Um guarda do campo lhe pega pelos cabelos, lhe atira dentro do caminhão, gritando: "vaca judia desnaturada, fugindo do próprio filho". Depois, o guarda pega a criança de 5 anos e a atira como um saco de batatas junto à mulher, e os mandam para o crematório.
 

Gostaria de compreender o que Tagore escreveu, que é muito difícil matar um homem, que cerca o homem um conjunto de forças vetoriais que o aniquilaria se não fosse uma ordem harmônica imprecisa que equilibra as coisas. Mas Tagore escreveu isso antes de 1939. Apesar de nós mesmos, de nosso vazio equivocadamente preenchido, e apesar da indiferença da natureza quanto à pequenez de nossos projetos e senso de segurança, de algum modo tocamos as coisas pra frente. Os japoneses calmamente se solidarizando nas filas de mantimentos, recompondo as peças dos destroços, como no relato de John Hersey, os mutilados de Hiroshima já um dia depois da bomba acreditando que o Japão patriarcal renasceria lentamente da incrível unanimidade de escombros.

É difícil mostrar otimismo numa situação destas, mas as bolsas de valores (que sempre foram os reais indicadores morais) despencaram quanto às ações da energia nuclear, e subiram exponencialmente quanto às ações das outras energias alternativas.

7 comentários:

  1. o haiti não é aki

    ouvi dizer q a monsanto doou milhões de sementes e fertilizantes pro haiti, qdo da recente catástrofe q matou cerca de trezentos mil (trezentos mil). daqueles presentes q fazem os presenteados de reféns, sabe?

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  2. ah, charlles, hj lembrei de ti, tive uma primeira aula de "história econômica contemporânea", com um cara q é uma figuraça, baita professor, e jovem. detalhe: teve aula com o próprio Eric Hobsbawm [ele dizia "esse cara eu amo", apontando pro livro, "esse cara tinha q tá aqui", apontando pra cadeira dele, "e eu servindo chazinho e biscoitinho pra ele"]. A primeira leitura será Hobsbawm, mas lembrei de ti por causa das leituras seguintes, Tony Judt, q me lembro de ter ouvido falar primeiro por aqui...

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  3. Os professores de História que reverenciam Hobsbawn merecem todo respeito, Rômulo. Quando cursei história, não eram todos que gostavam do cara. Tratava-se da "especialização minimalista" que se adere à nata dos estudantes "avançados" que, à busca da distinção intelectual, pensam que, por ser um autor popular, por ter extrapolado o hermético âmbito acadêmico e caído nas graças do leigo, Hobsbawn seria raso demais, apreensível em excesso. E como, no final das contas, tais alunos "avançados" ficavam pra trás, mesmo tendo obtido suas pós no mais novo e desconhecido marxista alemão e ao mais intraduzível historiador lituânio.

    Se vc deseja conhecer Hobsbawn de forma mais eficientemente rápida, sugiro a leitura de uma coleção de ensaios fantástica: Sobre a História.

    E Judt (que foi tema do primeiro post deste blog), tem um volume de ensaios também fundamental: Reflexões de um Século Esquecido.

    Afinal, tu fazes Economia ou é impressão minha?

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  4. A PERGUNTA FUNDAMENTAL
    by Ramiro Conceição

    Na ciência dos materiais, a resiliência é a propriedade de um material se deformar, isto é, absorver energia sob o REGIME ELÁSTICO. Ou seja, se for altamente resiliente, tal material devolverá à sua vizinhança a energia acumulada durante o fenômeno de sua deformação e, portanto, voltará, com grande probabilidade, às suas dimensões quase originais. Logo, materiais resilientes são utilíssimos à engenharia do SER-HUMANO.

    Mas advém, então, as perguntas do “CAPETA”: 1) o coração humano é eticamente resiliente? ou 2) se deforma plasticamente diante de qualquer moral hegemônica quando atingido o PODER? Em outras palavras: 3) um ser, dito, revolucionário, manterá a sua ética quando diante do PODER ou se deformará plasticamente até que fique irreconhecível, um infiel - fiel ao molde duma sociedade de classes; e, portanto, sendo impossível o seu retorno à filosofia original que lhe dera o passaporte à transformação da sua, nossa, história?

    Ou como brada a pergunta fundamental:

    PIMENTA NO CU DE OUTRO É REFRESCO?!

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  5. Li o comentário do Rômulo e fiquei lembrando daquele teu post sobre o Hobsbawm. Que bela homenagem foi aquilo. O velho merece.

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  6. curso economia, sim, depois de abandonar o jornalismo.
    a primeira leitura foi um excerto de "sobre a história". do judt leremos Pós Guerra...
    valeu pelas dicas!

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