terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Lula e os Castro - ensaio de Mario Vargas Llosa

 Um dos sentimentos de desabafo maiores que se pode ter numa realidade política em que a discussão fora substituída pela impressão da unanimidade emudecedora, é quando vemos nossos pensamentos a respeito muito bem descritos e coerentemente externados pelas palavras de um escritor de peso. Estou lendo o magnífico livro de ensaios de Mário Vargas Llosa, "Sabres e Utopias", e na página 91 me deparo com o texto que segue abaixo. Estou exausto por ter dirigido das 8 da manhã até as 14 horas, pegando um longo desvio por estrada de chão e por estradas de asfalto com tantos buracos que melhor seria se retirassem os cacos de asfalto e terraplanassem os buracos. A chuva derrubou a ponte que liga a cidade de Itapuranga, onde resido, a Goiânia, onde vim levar meus filhos para exames de rotina com o pediatra. E as seis exaustivas horas para percorrer 300 quilômetros de contorno deixaram a mim, `a minha esposa, e ao professor Rivair Morais que veio conosco, pasmos diante tanta evidência do atraso imenso que domina Goiás em todas suas características políticas, econômicas, educacionais...Apenas Goiás? Não. Cada centavo investido nos impostos do carro no qual estávamos, levados em enxorrada tal qual a ponte que sucumbiu à pressão do Rio Meia Ponte, e, numa cena irônica (lamentei não estar com a máquina fotográfica em mãos), uma placa oficial erigida ao lado das crateras com os dizeres "AGETOP, reclamações disque 0800..." O professor Rivair é um dos raros que tem a opinião de que o Brasil não mudou em nada, ainda contando a sua massa de famélicos, incultos, acabrestados, sem saúde, sem educação, regidos por um grupo de políticos e publicitários que nos faz um dos mais atrasados países do mundo. Viemos desfiando a indignação cansada de termos que viver aqui, e, assim, por compensação, o tempo passou quase sem que o víssemos, apenas meus joelhos e meus ombros se endurecendo de tensão por ter que desviar de infindáveis erosões que se espalham pela BR 53, que nos mapas consta ser plenamente trafegável. E agora, esgotado a um ponto de não ser capaz de dormir, tento ler esse volume de Llosa que minha irmã me presenteou. Palavras corajosas para serem publicadas num país em que o culto provindo dos estupidificados faz com que os dirigentes intelectualóides marquem o autor com a estrela do "inimigo bestializado", o "traidor neoliberal", o "idiota da ultra direita". Ler esse ensaio, compartilhar da verve intelectual de Llosa, é despistar-se um pouco desse Brasil que se nega terminantemente a deixar-nos em paz.

6 comentários:

  1. Sabes de uma coisa? Eu sigo achando que Vargas Llosa força a barra de uma forma tão agressiva quanto seus detratores. Ele os merece.

    Ele tem razão ao falar dos Castro e da Coreia do Norte. Tem menos razão ao ofender Chávez e Ahmadinejad (lá a coisa é beeeem complexa e de ordem cultural, como se pode ler em várias publicações; que tal um STF de aiátolas?) e quase nenhuma ao referir-se a Ortega e Evo. No texto, ele os chama -- a todos -- de escória.

    Estamos falando de gente do mesmo nível. Ofendem Llosa, ele bate de volta. Llosa continua sendo o escritor de dos melhores livros que já li -- Conversa na Catedral -- e de outros romances perfeitos. Mas, como ser humano, é um Céline sem uma causa repugnante para abraçar.

    Falar que a Petrobras não deveria isso ou aquilo por causa do regime cubano? Bem, se a coisa for pela moralidade, não poderíamos fazer comércio com os EUA.

    ~o~

    Sobre o Brasil: há muito ufanismo e em grande parte concordo com teu amigo. Aumentou o consumo, mas não mudou quase nada. Hoje, tivemos um calorzinho de 38º em Porto Alegre. Resultado: apagão. E os aeroportos? E as estradas tb aqui no sul? Tudo umas merdas. Imagino tua angústia ao levar um bebê de 3 meses podendo quebrar um eixo a qquer momento.

    ~o~

    Finalmente hoje foi publicada tua resenha de 2666. Está lá desde às 6h da manhã até agora. É excelente mesmo.

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  2. Amigo Milton, nem tudo o que diz Llosa eu concordo. Mas a parte de discordância é muito pequena. Restringe à sua total auto-expurgação a qualquer outra alternativa de esquerda, a qualquer outra ideia mais compexa e inédita de contrabalançar o capitalismo neoliberal e globalizante que nos está acabando como espécie. Talvez seja até um direito de um septuagenário que já brilhou intelectualmente em várias produções intelectuais, deixar que novos vislumbres de opções sejam feitos por outros mais jovens _ e com menos propensão ao engano. Mas os detratores de Llosa costumam quebrar a cara, a exemplo o maior deles, que é todo o povo do Peru que apostou no populismo de Fujimore. Em 1992, Fujimori implantou um golpe anacrônico que extinguiu o judiciário, o executivo, e fechou o Congresso...

    Costumo dizer que eu sou esquerdista órfão de ideologia, e mais órfão ainda de legitimização pela História. Acho validíssimo esse texto de Llosa _ e uma série de outros que causou meu deleite, hoje, de formas que te peço que compres o citado volume _ por romper a casca grossa do lulismo e do petismo embasbacador que reina principalmente na vida intelectual brasileira. Por oferecer o debate diversificado, ou a possibilidade dele.

    Vou lá conferir, no Sul 21 e...obrigado.

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  3. O comentário de Llosa trata a Europa (em que europa será que ele passa seus refrescantes meses do ano, para depois ter que chafurdar nos desagradáveis buracos latinoamericanos? Ainda bem que é só por 3 meses...) como a resenha de 2666 trata o iluminismo. Como quem esteve lá, mas pouco enxergou. Uma pena, um maravilhoso escritor, tão envelhecido. Até parece a esquerda cega falando da revolução...

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  4. Anônimo, sinceramente não sei o que quis dizer com a parte do iluminismo, na resenha de 2666. Tenho uma visão decantada do iluminismo, mas o que referi a "impossibilidade de redenção" e deficiência de autodeterminação da America Latina, na referida resenha, trata-se do que deferi como a visão que Bolano tem dessa parte continental do mundo.

    Llosa talvez, como disse o Milton acima, peque pelos mesmos excessos que o pessoal que critica, em seus modos desarroados e passionais ao falar da "esquerda", mas, a meu ver, ele é mais coerente com seu humanismo camusiano do que autores também detentores do Nobel, como Neruda e Márquez. Neruda, pressionado a se posicionar sobre o vazamento de denúncias da opressão assassina da URSS, feita por Soljenítsin, limitou-se a dizer que se emudeceria para não ofender os tantos amigos que tinha no regime soviético. Márquez usou da mesma reticência de "bajulador de padres e ditadores" _ nas palavras de Bolaño_, para se imiscuir de criticar as execuções de intelectuai dissidentes realizadas por Castro.

    Leia "Contra Vento e Maré", com os textos de Vargas quando ele defendia a esquerda latinoamericana. Ele não "traiu" a causa, mas a renegou e a condenou, no que ela tinha de torpe e retrógrada, desumana e assassina, após observá-la pessoalmente, e após ler pensadores liberais, como Isaiah Berlin, Revel, Popper, etc.

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  5. Bem, Charlles,
    após as passagens sobre os blogs do Milton e da Caminhante, creio que meu poema chega aqui, enfim, inteiro...(Será?).


    PEDAÇOS
    by Ramiro Conceição


    Em um dia, necessito
    de 12 horas sagradas
    e 12… sem fantasmas!

    Sou pedaços,
    mas multiplico
    pra ser inteiro.

    Sou pedaços,
    mas me divido
    até o ínfimo.

    Sou pedaços,
    porém sonho,
    somo… ao infinito!

    E a subtração?
    Nunca. Jamais!

    Pois destruo
    à construção

    de tudo!

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  6. Charlles
    Acho que tu e o Milton deviam debater mais sobre política. Gosto muito. Aprendo.
    Gostei do texto do Llosa, embora discorde de muita coisa. Concordo com quase tudo que o Milton disse, inclusive nas partes que ele concorda com você.
    A crítica do Llosa é certa quanto à conivência conveniente de Lula (que, penso, não é só econômica, mas também política) com Cuba. Porém, o Milton está certo em referir que o contraponto deve ser feito, que a bela Europa e os EUA fazem acordos com gente igual ou pior. Sempre fizeram. Isso não é coisa apenas do "idiota latino-americano" (às vezes, essa europofilia do Llosa me soa tão deslumbrada...).
    Não consigo ter toda essa antipatia pelo governo Lula. Vejo muita porcaria, mas também avanços. Estou cansado demais para argumentar, mas queria que soubessem que gostei do, infelizmente pequeno, debate de vocês.
    Como sempre, me deixou menos ignorante.

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