segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Ululância de Julian Assange



As notícias referentes ao site Wikileaks me dão a impressão de que, apesar do sufixo de nossa orgulhosa alcunha de "homens modernos", nós ainda não estamos plenamente adaptados à modernidade. A parte neuronal que ainda comporta em nós a excitação diante à novidade estarrecedora está em latente espera para ativar-se em seus circuitos de arregalamento dos olhos, sudorese das mãos e fricote do corpo. E nada melhor, nesses dias que antecedem o natal, para o exercício dos nunca velhos contos da carochinha, do que saber que o Grande Satã, mais uma vez, anda aprontando das suas; que os Protocolos do Sião foram devassados, pelo heroísmo de um blogueiro destemido, e mostrou o que, parece, era insuspeitável: os EUA estão, sozinhos e há um século, encabeçando uma conspiração terrível para a dominação final do mundo. E tal constatação deve ser alimentada sob a trilha sonora fantasmagórica de Uma Noite no Monte Calvado, de Mussorgsky; enquanto a seção de violinos desenha o painel musical de sacrifícios rituais de bruxas e demônios, nossos pêlos se eriçarão em completo pavor diante as notícias de que Kirchner era obcecado pelo poder; que o rei Abdullah pediu aos EUA que atacassem o Irã; que já foi aventado na alta cúpula dos EUA e da Coréia do Sul uma unificação entre as duas Coréias; e, a mais aterrorizante de todas: o presidente Nicolas Sarkozy é "delicado" e "autoritário".


Faz-se tanto barulho em torno desses "escândalos" nunca dantes imaginados, e com notável entusiasmo entre blogs da assim chamada esquerda, que alguns destes já nomeou o fenômeno como "o maior acontecimento da história da diplomacia internacional". Tamanha quantidade de ouro de tolo foi suficiente para fazer com que se retirasse em massa as emboloradas faixas de protesto dos armários, e os hoje cinquentões dos movimentos ativistas brasileiro formassem barricadas no mundo virtual com suas cantigas de guerra contra o domínio imperial norte-americano. Tudo em notável contraste com a realidade atual, em que o poderio dos Estados Unidos, em todas as frentes em que outrora se podia falar de supremacia (cultural, política, econômica...), está em mais que visível decadência. Como num choque fibrilar, blogueiros de esquerda reanimaram seus sepultados sonhos de serem Eduardo Galeano, e puseram-se a postar extensos textos "bombásticos" que trazem a verdade ainda não revelada de como o Brasil foi vilipendiado pela ganância norte-americana. (Como sempre, a esquerda brasileira  chegando atrasada às atualizações ideológicas globais, e sempre impossíbilitada de voltar os olhos para si mesma. Basta ver que, na edição de 2010 de "As Veias Abertas da América Latina", Galeano condena a política lulista de depredação ecológica e econômica das extrações da cana-de-açúcar.)

De súbito, para atender aos argumentos canhestros que os blogs de esquerda usam contra o corportivismo midiático da imprensa televisiva e de papel, essa revelação disponibilizada por Julian Assange, em 250 mil documentos em que pesem as opiniões de pé de ouvido e as fofocas de bastidores de diplomatas e embaixadores americanos _ a maioria bêbada_ (tudo já revirado à luz do sol no muito mais consistente "Diplomacia Suja", livro de Craig Murray), passou a ser o santo graal para a destruição de toda mídia informativa que não a dos blogs. Pois Assange, em sua obviedade ululante, se tornou o santo padroeiro dos blogueiros, com todas as características sortuitas de que se transformará, à maneira de São Pedro, no mártir da verdade impetuosa, visto que já consta da lista de procurados da Interpol. E se o crucificassem de cabeça para baixo, então, melhor se prestaria à edificação de uma nova mítica de seguidores encegados pela crença em seus mesmos heróis e bandidos. Que não conseguem intuir dos novos ventos melífluos que a fortaleza do antigo império já se encontra debilitada, e pelos buracos no muro já se avista os mongóis chegando.



3 comentários: