sábado, 20 de novembro de 2010

Seu rosto amanhã. Javier Marías

                                                                  Javier Marías
Por Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro


Que meio romance, com meio enredo e meios personagens, seja suficiente para encantar público e crítica, revela a impressionante singularidade da imaginação e voz de Javier Marías, o mais inclassificável autor espanhol contemporâneo. Seus livros vendem, ganham traduções e ele se firma como um fino analista psicológico, sem cor local e sem caracterizações preconceituosas. Mas nem sempre foi assim, e não é difícil se surpreender com seus fracassados e irregulares primeiros livros, ainda mais quando comparados com a tranquila ressonância e realização estética de seus últimos três romances - 'Coração tão Branco', 'Amanhã, na batalha, pensa em mim' e 'Negra espalda do tempo' -, todos publicados em belas traduções pela Martins Fontes.

A voz atual de Marías, mais do que a expressão de um talento, é a apoteose de uma vocação obstinada que o fez tentar e tentar inúmeras vezes por diversos caminhos até alcançar nos romances 'O homem sentimental' e 'Todas as Almas' um narrador capaz de construir textos que reflitam, de modo satisfatório, suas inquietações. Com W. G. Sebald, Andreï Makine e o melhor de Lobo Antunes, ele compõe o que de mais instigante a Europa produziu nos últimos 15 anos; com eles, representa a linha de frente de uma resistência que já dá ares de derrota, considerando-se a irrestrita aceitação de uma emergente e frágil maneira de se fazer literatura, onde se prioriza mais questões para-textuais - teorias, questões ideológicas -, e onde fica caracterizada a progressiva morte de uma sintaxe exigente e rica, o fim de uma reflexão que vá além do mero documental ou o narcisismo técnico e autobiográfico. O humano no espaço contemporâneo está em crise; em Marías, resplandece em toda sua contradição e beleza.

Jaime, ou Jacobo ou Jacques Daza, personagem sem nome de 'Todas as almas', é o instigante narrador do belo 'Seu rosto amanhã'. Se no primeiro ele carecia de passado e até mesmo de nome, em 'Seu rosto' ele está às voltas com sua própria vida, de sua família e país. A história é ambientada na cidade de Oxford, onde Jaime trabalhava como professor e para onde retorna para um final de semana na casa de um amigo, professor aposentado. A narrativa inteira se passa, com idas e vindas no tempo, em uma noite e madrugada e numa manhã e almoço (na sequência ainda em redação, com lançamento previsto para o próximo ano).
Há espiões, crítica literária, ensaio histórico, auto-citação; erotismo, suspense e ótimo bom humor; porém, o mais interessante em Marías, além de sua visão sobre o tempo e memória, é a lentidão de seu olhar: demora páginas sobre objetos, sobre pessoas, reflete, inventa relatos para logo desmenti-los e os substituir por outros; cita obras alheias - Orwell, Benet, de seu pai, o filosofo Julian Marías -, dialoga com Shakespeare, com Proust, com Borges; retoma, recorrentemente, temas e motivos anteriores, relendo e refletindo eles em contextos diferentes. Hugo Estenssoro já afirmou numa resenha que o lento ritmo cervantino é uma estratégia para espantar os frívolos; repito-o, som menos propriedade e sem permissão, no caso de Marías.

A exigência de ler 'Seu rosto amanhã', de atravessar várias páginas onde "nada acontece", acompanhar longas suposições que se negam, expandem, se contraem até alcançar uma solução para logo, por mero capricho, ou pela força de outro pensamento, serem descartadas pelo narrador, essa exigência, feita ao leitor contemporâneo tão acostumado à rapidez e anedotário direto e preciso, é superlativamente mais subversiva que as vírgulas mal comportadas e nervosas da vanguarda ou os precisos cálculos e sofisticações da maioria dos autores edificantes e complexos que se multiplicam em todos os continentes, como praga. A prosa de Marías carece de atrativos para o leitor acostumado ao "melhor" da literatura produzida hoje justamente por ser tão radicalmente literária: não se lê com imagens, com teorias - se lê com palavras. Não que Marías seja um homem alheio ao seu tempo; ao contrário: nela há sempre a citação de cinema (um dos momentos mais brilhantes de 'Amanhã, na batalha, pensa em mim' é justamente desenvolvida a partir de uma cena de filme), de elementos da cultura popular como romances de espionagem e uma declarada queda ao melodramático, sem falar da clara estrutura policial de suas narrativas - e não há nada mais contemporâneo que a imaginação policial, que se encontra tanto em Borges quanto Sebald, que está em Bernhard, em Faulkner.

O que acontece é que Marías tem seu pensamento particular, sua maneira de ver o mundo. Pode-se até se expressar sem pensamento, há livros, quadros e filmes inteiros que provam isso; porém, quando se pensa, a expressão torna-se apenas texto, massa verbal, e deixa de ser a finalidade do autor: torna-se o meio para alcançar outro nível além do mero 'contar' uma estória. Essa é a diferença do estilo para o hábito e maneirismo. E é nesse ponto que Marías marca sua diferença. Até mesmo de seus companheiros espanhois que criam num momento particularmente exuberante de suas letras.

'Seu rosto amanhã' é, num mundo afoito por classificações, um livro de espionagem. Porém, o grande protagonista do romance é a palavra, mas particularmente a palavra não dita, silenciada. Seja pela morte, essa última estação, seja pelo passado oficial, como discorre Daza acerca da Guerra Civil espanhola; seja pela ação governamental em tempos de guerra - a campanha inglesa do careless talk. Seja, também, pelos gestos e inflexões, que dissimulam o que se sente, o que se pensa.
O silêncio, o passado subterrâneo, e a tentativa de alcançá-lo: isso está por trás de todas as palavras desse livro. Inclusive, como Deza demonstra, falar pode ser a forma mais apaixonada de manter segredos, de calar. É um livro sobre o poder da interpretação e a potência de imaginar, suas consequências desde o sutil relacionamento afetivo entre pais e filhos, cônjuges, e até mesmo dentro do corpo verbal dos textos literários, onde Marías descontextualiza Benet, onde Daza descontextualiza Shakespeare.

Ler o mundo, ler o gesto, ler as palavras, numa brilhante reflexão sobre o poder do relato - uma narrativa que se inicia negando a própria necessidade de contar e narrar, alertando seus riscos, e que não faz nada além de narrar e contar, por quase quatrocentas páginas. Exatamente como Daza, o resenhista também corre o risco, num livro plural e singular como esse, de escrever além do necessário. Mas esse é um daqueles casos onde a escrita, a forma mais sofisticada de ler, se sente instigada a ir de encontro ao seu objeto - e não o encontra. Escrever sobre livros como 'Seu rosto amanhã' é sempre escrever pela metade.

(Retirado do site Terramagazine)


Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

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