domingo, 28 de novembro de 2010

Ser Deixado em Paz pelo Seu País



Perguntado sobre o que mais gostava em seu país, o romancista norteamericano John Updike respondeu que o fato dos EUA nunca ter-lhe incomodado no trabalho e na vivência diária era a percepção que tinha de estar vivendo em algo mais próximo possível a uma democracia. Updike não é um dos meus escritores preferidos, mas essa frase me tocou e elucidou diversos pontos do discurso sobre a vida naquele país dos canalhas e o recente e irrefreável crescimento do Brasil rumo ao desenvolvimento, (como apraz aos termos correntes usados por blogs de esquerda nacionais) mais que a leitura dos que se arvoram em condições de transitar por esses assuntos como doutos especialistas.

A noção de Updike de direito a incolumidade apresenta-se como algo inédito e até herege quando imagino os pensadores políticos brasileiros estendendo vistas ao tema. A exemplo disso, temos a quase infinita campanha à presidência que misericordiamente se encerrou há um mês, em que a  necessidade de tomar partido por um candidato ou outro era uma sensação atmosférica paupável, que gerava aos que se negavam posicionar-se a pecha de apolítico,  quando não de ser indiferente aos sofrimentos dos pobres diante à revolução de melhoria social apregoada pelos movimentos da esquerda petista quanto aos anos do governo Inácio. A observação de Updike, contudo, aparentemente supérflua, revela uma multidão de reviravoltas históricas acontecidas nos EUA, em especial dos anos do pós-segunda guerra até hoje, em que não só a força de contestação de intelectuais como até mesmo o fragmentário frenesi das massas de consumo da assim chamada indústria cultural serviram para que o cidadão norteamericano alcançasse esse estágio invejável de ser imune aos tormentos da pátria. A paradoxal paixão do norteamericano pelos rituais de asteamento da bandeira nos quintais das casas, em confronto com o nosso desconhecimento voluntário à letra do hino nacional, revela um quadro de esclarecimento sobre maturidade democrática tão claro quanto as teses de Marx Webber sobre a ascensão econômica vinculada à doutrina puritana da poupança: os que conquistaram um confortável nível de inadmoestação se sentem livres para amarem os símbolos do Estado, que os  deixam livres do peso de consciência de se verem como alienados; por outro lado, os que são presos ao ferro velho das fases históricas nunca resolvidas e do aguilhão da intromissão diária do Estado em suas vidas, se tornam como os presos dando voltas no minúsculo pátio de um presídio, e o amor que devem obrigação a sentirem pelo Estado se condiciona ao sentimento de culpa de, em caso contrário, estarem sendo alienados. Sérgio Burque de Holanda cunhou para isso o clássico termo do brasileiro "cordial", e o conceito de que o brasileiro é incapaz de distinguir entre a vida pública e a vida privada.

Não que os EUA sejam uma democracia perfeita ou o céu na Terra. Para impedir que a leitura desse presente texto descambe para tal interpretação, basta pegar a obra do próprio Updike, que devassa os problemas da classe média, a crise do petróleo da década de 1970, ou mesmo a procura por um mundo idílico que veio achar num Brasil fantasiosamente florestal. O século XX norteamericano está fartamente documentado na literatura, desde o preconceito racial contra os negros, na obra de Ralph Ellison e Faulkner, até a revisão do macartismo e a hipocrisia da moral inspugnável na era Clinton, na trilogia de Philip Roth sobre a vida americana. No cinema, filmes que são enrigecidos dedos nos olhos, como "Beleza Americana", expoem o niilismo de uma sociedade onde o sucesso tem a perigosa ingenuidade de se firmar em ápices exobitantes de consumo, o que gera as crises financeiras catastróficas que alimentam de outro lado os documentários de Michael Moore _ assim como o precário sistema de saúde pública norte americano foi tema desse cineasta. O jornalismo norte-americano criou até uma modalidade nova para desencobrir aspectos da vida do país cuja superfluidade natural da imprensa tendia a torná-los tabus intocáveis, por isso escritores de alto nível e jornalistas desabnegados criaram numa simultânea força conjunta o jornalismo literário para desacralizar assuntos incômodos como Hiroshima, a pena de morte, as comunidades universitárias, a falsa segurança do mundo empresarial. Não se pode negar que o Estado americano tem sido atacado maciçamente em seus inumeráveis problemas, a ponto de ser podado de toda tralha que tem experimentado ao longo do século passado e tranformado num campo dialético onde até os mais alienados de uma sociedade hedonista podem se tornar críticos contundentes, desde que se esbarrem com uma vertente que os incomodem (um cidadão comum pode pegar uma câmera e realizar um documentário que vai da estapafurdice curiosa de Loose Changes à denúncia contra o descontrole de uma multinacional, como em Super-Size Me).

Nos EUA, há algumas décadas, um cliente  não obteve as benesses futuras lidas nas cartas, e ganhou um processo judicial contra a cartomante que consultara por inépcia profissional e danos morais. Ano retrasado, os jornais nacionais mostraram o drama pirandeliano de um senhor septuagenário que não conseguia existir no mundo público por não achar meios de provar ao Estado que a certidão de óbito que emitiram em seu nome era falsa. Passava fome a olhos vistos por não poder retirar a aposentadoria, tudo porque o Estado brasileiro estava disposto a acreditar que ele era a prova substancial da existência de fantasmas de além-túmulo, mas negava-se a acreditar que a sua torpe e cruel burocracia  fosse questionável. Enquanto os EUA usam o surrealismo em ambas as direções num confronamento contra o Estado (ou à omissão do Estado), o Brasil o usa sempre contra seus cidadãos. Podemos ver isso claramente no modo como o Brasil conserva acirradamente as estruturas clientelistas tradicionais do funcionalismo público. De novo empregando um exemplo recente que tem origem nos EUA, um juíz daquele país fez-nos visita oficial há coisa de seis, sete anos. Esse alto magistrado norteamericano ficou estupefato diante as regalias que os juízes e promotores brasileiros possuem. Lembro-me que, na matéria de um jornal norteamericano do qual colhi o artigo, o juíz mal conseguia maquiar com boa educação diplomática a sua consternação de ter tido conhecimento sobre nosso atraso gritante. Não só o salário de um juíz brasileiro era maior que o dele, como o nosso representante do judiciário tinha regalias de sultão, como alugel, combustível, contas de luz e água, bônus destinados à compra de roupas...tudo bancado pelo Estado, além de direito a três meses intercalados de férias por ano (apenas isso mudou, reduzindo um mês). Na minha cidade, por exemplo, o promotor e o juíz trabalham no máximo dois dias por semana, o que deve-se à inépcia do país em não abrir vagas para tais servidores públicos num número suficiente, desabarrotando-os da necessidade de representarem várias comarcas ao mesmo tempo. E, como se pode ler em uma reportagem da Revista Piauí sobre o assunto, a  galardície e ambição tem pés tão fincados nesse meio, que dificilmente encontra-se um desses profissionais públicos com compromisso social para suas comarcas, motivados em jogos de se transferirem para cidades que botem em maior relevância suas chances de subirem para uma desembargadoria. E assim o Estado aflige e perturba o cidadão na mitológica lentidão e incompetência do judiciário brasileiro.

No Brasil criam-se leis para de tempos em tempos fazer-se de conta que o Estado funciona. A mídia de todos os nichos, ancorada no seu único motivo da notícia festiva e simuladamente dramática, é acionada para fazer a propaganda do Estado. Mesmo os órgãos de informação que detêem o papel da opinião contraditória e enfezada, são atraídos por esse esquema inexorável de auto-promoção o qual o Estado nacional mostra como a única coisa que mantêm com competência. Daí que o cidadão brasileiro, que antes beijava os filhos pequenos na porta da escola, ou lhes dava palmadas na bunda a título de correção, se veem num cenário orweliano de denúncias e vigília entre vizinhos, tornando-os potenciais pedófilos e torturadores cruéis que investem contra os próprios filhos. E o que antes eram situações cuja normalidade efetiva ou os abusos criminosos tinham na incumbência da tradição familiar ou na polícia, o Estado constrói uma obrigatória adaptação a uma nova realidade paradigmática _ a qual não foi pensada, mas lançada levianamente como justificativa da existência do Estado _ , cujas consequências só se verá a  longo prazo, no término de uma geração. E o academicismo alegre de psicólogos, sociólogos e demais especialistas profundos sobre o comportamento familiar abalizam o Estado com  mesmo pedantismo de-cerebrado de um vendedor que tem os produtos da empresa que o contrata como os mais pios e sublimes do mercado.

O que me motivou a escrever esse texto, porém, foi a guerra civil de vinte anos travada no Rio de Janeiro, que atingiu alturas de descontrole nunca antes vistas nesse país na última semana. As imagens de ônibus  e carros populares consumidos pelo fogo, incendiados por traficantes. A favela onipresente que torna o Rio uma das cidades mais feias do mundo, fechada como quartéis generais para proteger os líderes do tráfico. A marinha invadindo a Favela do Alemão, e uma horda de traficantes fugindo mato adentro para os morros vizinhos, como insetos que fogem quando uma pedra é revirada. Os casos pontuais que ninguém mais presta atenção das balas "perdidas" que matam crianças, jovens, adultos e velhos. Autoridades empacotadas nos ternos dando seus calmos depoimentos oficiais (onde eles vivem!?), o secretário tentando incrivelmente expandir o nível de crendície popular querendo que acreditem que os ataques são devido à enorme eficiência do Estado em ter confinado os grande gerentes das drogas em presídios de alta segurança, por isso a retalhação da bandidagem. E alguém aí acha que essas medidas paleativas vão surtir os mesmos resultados determinantes que na Nova York contra o crime, do prefeito Giuliane, ou na Itália dos juízes unidos para erradicar a máfia siciliana?

São  por demais conhecidas as imensas crateras no Estado brasileiro para que alguém se engane em achar que o bem vai vencer na inspiração do Capitão Nascimento, e o Rio vai estar livre de agora para sempre.  Thomas Hobbes escreveu que quando o cidadão, no pacto de proteção que nos corrige do estágio da barbárie assassina depositando o direito do controle sobre o Estado, não consegue que o Estado supre suas mínimas necessidades sociais prometidas, de família, educação, saúde, trabalho, cultura e lazer, é direito desse cidadão que se volte contra o Estado ocupando uma marginalidade reativa.  A ausência do Estado autoriza legitimamente que os excluídos também descumprem a cláusula contratual de civilidade apascentada e retornem ao nível da selvageria e do assassinato. Desde a escola precária que não tem condições de apegar o adolescente atraído pelo dinheiro do tráfico, passando pela verdade assombrosa de que os PM´s que enfrentam uma guerra muito pior que a do Iraque a do Vietnã estão dispondo suas vidas pelo salário mensal de R$ 910 reais, até a cara de sono incurável dos dirigentes nacionais que sabem que se nada foi feito antes para sanar o problema, não vai ser na pausa sagrada de final de ano em que o país só volta a trabalhar após o carnaval, é que algo será feito. Ainda mais no período de transição presidencial.

O Estado brasileiro não existe. O povo brasileiro ainda não tem condições de cobrar sua existência de forma efetiva e sincera, além dos sonhos triviais de uma grande maioria que ecoa no silêncio de suas reminiscências pessoais a nostalgia da ditadura militar, ou a opção do neoliberalismo total. O Brasil ainda está longe de poder cogitar em deixar seus cidadãos em paz, a começar pela obrigação de colocá-lo de frente à urna eletrônica ( a mais funcional do mundo, nisso somos bons) para que continue mantendo  tudo como está: festivamente normal.



2 comentários:

  1. bá, charlles, tu escreve mto bem. melhor, me parece q PENSA mto bem. e, de minha parte, no meu máximo, sou levado por esse pensamento e, por ti, chego a boas conclusões (ninguém falou em definitivas), apenas por acreditar em uma boa intuição pessoal para essas coisas, como dar atenção às pessoas certas.

    tenho ouvido tbm o pessoal do braziu, não sei se os conhece
    http://www.braziu.org/2010/11/28/o-bagulhao-o-japones-o-professor/

    ResponderExcluir
  2. Conheço os caras, veja só que coincidência, por uma mensagem que recebi por email, há duas ou três semanas. Desculpe o atravancamento do texto, Rômulo, mas é que há situações no Brasil que me deixam tão p... que a coisa sai mais como terapia do que com uma preocupação por clareza.

    ResponderExcluir