sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um Texto Cativo de Idelber Avelar

Passei a conhecer Idelber Avelar através do blog do Milton Ribeiro, há um ano. É tão famoso no meio acadêmico gaúcho quanto desconhecido nas universidades do Centro-Oeste brasileiro, proporcionalmente como faz o sentido inverso nomes como o do professor Jadir Pessoa, cultuado pelos estudantes das ciências humanas por aqui nem tanto por seus inúmeros livros (que poucos leram), mas pela insígnia da constelação de Sorbonne que sempre o precede, como um tapete nobeliárquico, para onde quer que vá. Idelber interrompeu seu muito frequentado blog, "O Biscoito Fino e a Massa", afim de aumentar sua já representativa bibliografia, e retornou há algumas semanas, depois de transitar por não sei quantos países com o ativo olho clínico de  ensaísta itinerante. Sua postagem de retorno é de dar inveja à maioria dos formandos em história, sociologia e letras (para ficarmos só nestas), pois mostra que todos os planos assinalados como razão da longa suspensão do blog foram sistemáticamente cumpridos com glória _ há links mostrando os livros lançados, os países visitados, as parcerias alcançadas e mantidas.

Idelber Avelar é um potente formador de opinião, o que é confirmado pela quantidade e qualidade dos comentários que "O Biscoito Fino e a Massa" recebe. E é aqui que as possibilidades de manter essa série de atributos veneráveis em um nível elevado de independência intelectual se esbarram com a falta de disposição de Idelber em fugir às obrigações dos seus cargos de ofício. É em sua fixação por seguir na verdade incontestável que escolheu defender, que ele deixa de ascender-se ao degrau  superior da busca  por uma verdade mais abrangente e lúcida, para se contentar a ser apenas a encarnação constante de suas velhas paixões políticas. Na mesma página de retorno de seu blog, citada acima, Idelber já anuncia que o tema reinante até as eleições será, militantemente, a política. E "política", pelo que o blog passa a apresentar em fotos, estampas e vídeos, na ideia particular de Idelber, é uma acirrada e massiva propaganda para eleger a sua candidata, Dilma Rousseff, e seus demais candidatos aos outros cargos do poder por todo o país. Assim que o visitante acessa o "O Biscoito Fino e a Massa", antes que apareçam as legendas, links e os textos, a imagem se congela, por questões de segundos, em um quadro com a foto matizada de uma Dilma Rousseff jovem, com a frase cerceante "Verás Que Um Filho Teu Não Foge À Luta". Uma foto cujo efeito subliminar parece ser a de atiçar a propagação febril de seu uso como estampa de camisetas e adesivos de para-brisa, no mesmo molde icônico da famosa foto do Che tirada por Alberto Korda.

Como não poderia deixar de ser, seguindo esse denominador de forma de conduta conforme o seu traçado linear pessoal, Idelber lança-se na contra-propaganda do adversário da Dilma, José Serra. Os textos que publica no blog sobre o Serra adotam a postura demonizadora, pejorativa e caricaturesca das velhas malhações ao "Porco Judeu" que o comediante Sacha Baron Cohen  mostrou no filme "Borat". No post do dia 03 de setembro, intitulado "As Aventuras do Careca: Fábula de um País Imaginário", um diálogo farsesco quer colocar abaixo a notícia "da hora" sobre as tais falsificações na Receita Federal para devassar a vida da filha de José Serra. Com um humor capenga e apressado, o texto se compõe do que a recepção dos 27 comentários a ele definem como sendo uma fábula genial, uma peça literária linda, que põe no chinelo Esopo e La Fontaine (como se, numa participação retalhadora inconsciente, estivessem contribuindo para o expurgo assinalando no texto os costumeiros animais amorais típicos na produção desses dois fabulistas). Não há duvida de que "inimigo de amigo meu, é meu inimigo", o que debilita e impossibilita completamente o tal debate honesto e construtivo que em alguma outra hora se propôs. E o curiosamente sintomático é que Idelber constantemente acusa o filistismo e a grosseria dos inimigos de Dilma, fazendo troça de que chamem Lula de "sapo barbudo", por exemplo, como se seu exemplo fosse idôneo o bastante para o vexame de consciência da oposição.

No livro "Mente Cativa", o escritor Czeslaw Milosz expõe o que é tido como uma das primeiras denúncias contra a iconização pia feita pelos intelectuais aos regimes ditos comunistas e socialistas do Leste Europeu. Em sua nota introdutória, lembra o furor retalhativo com que seu livro foi recebido pelos intelectuais no ano em que foi editado, 1951, e de como Camus sofreu com o seu precedente corajoso de ter comparado a base dos sistemas socialistas com a rede de campos de concentração, fato pelo qual Camus "foi difamado e condenado ao ostracismo por seus colegas". Nesse livro, cujo título já é um petardo de lucidez, Milosz já antecipa, em plena época de ouro do Stalinismo e das demais derivações soviéticas, o terror que se acobertava por debaixo dessas maquiações e realidades ortodoxamente distorcidas, e o quanto o crime silencioso levava de roldão a reputação de intelectuais monocabrestados pela defesa de uma Esquerda redentora. Tony Judt, que tanta falta fará no mundo desse ano para frente, em um ensaio magnífico incluso em "Reflexões Sobre um Século Esquecido", salienta a força intelectual de Arthur Koestler ao altear a voz para revelar uma verdade que estava sendo oprimida sob a verdade constituída, a verdade comprada aos intelectuais e estendida como bandeira do absurdo de forças da História tidas como incorruptíveis e deterministas.

O que digo aqui não é uma acusação à esquerda, posto que não vejo com tanta infantilização a diferença entre esquerda e direita no Brasil atual. Não é um ataque a Dilma, Lula ou, o que poderia parecer, uma defesa de Serra, pois não vejo a mais ínfima diferença entre Serra e Dilma. O que digo aqui é a constrangedora verdade da insuficiência dos intelectuais nacionais em mantêr a independência de pensamento nos momentos onde o excesso de frentes passionais lotam toda a vida mental do país. A mesquinhezação voluntária e a transparência de intenções erradas que acomete essa classe de opinadores que os fazem instrumentos nas mãos daqueles que eles deveriam vigiar com uma isenção implacável. O que é de se lamentar é que os intelectuais brasileiros ainda não foram exorcizados das grandes utopias e modismos políticos do passado, e não conseguem ver a contemporaneidade do Brasil senão através das mesmas lentes que os entusiasmaram na adolescência e os fizeram vestir as mesmas camisas de guerra nostalgicamente guardadas no armário. A incapacidade de Idelber ou quem entre os acadêmicos altamente graduados do Brasil de, no dizer de Edward Said, falar a verdade ao poder, sem vínculos a partidos ou cátedras ou benefícios políticos prometidos.

E o mais imediatamente benéfico que falta a esses intelectuais perceberem é que, deixando de se comportarem de modo tão acintosamente coniventes, evitam ao menos de terem que se desculpar por terem errado tanto, no futuro.


33 comentários:

  1. Uma vez uma das minhas professoras de antropologia criticou a postura do Da Matta em opiniar sobre qualquer coisa, como se o fato de ser antropólogo o permitisse fazer entender qualquer coisa da realidade brasileira. De acordo com ela, seria muito mais honesto intelectualmente se os professores/ autores/ pesquisadores se limitassem a falar de suas especialidades, sobre o que realmente pesquisaram.

    Ao mesmo tempo eu entendo essa postura combativa, essa vontade de dizer algo às outras pessoas. Ele é um homem inteligente, que se interessa por política e quer influenciar naquele em que acredita. O que fazer, escrever um blog anônimo? Isso sem dizer que existe essa demanda, de saber o que um homem como ele pensa sobre vários assuntos, sobre política. No lugar dele, acho que a maioria faria a mesma coisa.

    Eu acho que o problema está na maneira distanciada como olhamos nossos intelectuais. Talvez porque o acesso ao ensino de qualidade no Brasil ainda seja um privilégio. Eu evito falar que tenho mestrado, fico constrangida; não gosto que meus amigos comecem a medir suas palavras comigo, comecem a achar que sou um gênio porque cumpri certas formalidades estudantis. Ter um diploma em certos meios já é considerado sinal de genialidade. Mestrado e doutorado, então, em quase todos os lugares. Só quem já viveu essa experiência consegue vê-la em perspectiva.

    Eu opto por não usar da minha formação para dizer algo. Algumas coisas do meu blog, olhando com cuidado, refletem posicionamentos que eu tenho como socióloga sem dizer esse nome. Mas isso é porque não sou das combativas e discussões virtuais me cansam antes mesmo de começadas.

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  2. Seu segundo parágrafo resume muita coisa, Fernanda. Uma coisa é posicionamento formativo e parcial, outra é o mero panfletarismo vazio, que se destina justamente à apreciação e ovação pelo público que compõe essa maioria conduzível a que se refere. Eu fiz mestrado em veterinária (só o fiz por ser requisito ao concurso federal de Inspetor de Abate), passei pelo curso de jornalismo e história, e, cá entre nós (nos comentários podemos ser mais Imoderados) tenho aversão ao professor universitário, esse herói da autarquia do pensamento que tem acesso a verdades veladas pelo simples fato de ter conseguido um papel para emoldurar na parede da sala às custas de três anos vendo e escrevendo martirizantemente sobre A MESMA COISA. Tive exemplares arrogantes desses por demais para conhecê-los em profundidade.

    O intelectual _ e utilizo o conceito estabelecido por Edward Said: pessoa que trabalha com o intelecto, não o impostor vaidoso _ tem o dever de falar a uma personificação da PLATÉIA que seja reflexo de si próprio na busca pela verdade. Estamos acostumados aqui com tanta hipocrisia e baixesas que as palavras essencias perderam os sentidos. Há alguns meses, respondendo ao ricardo Branco, o Milton (que sabemos o quanto vale e o quanto o respeitamos) disse que o fato de Lula ter se juntado ao Sarney, ao Collor, é admissível por a política brasileira ser desse geito mesmo, ao que o Branco se mostrou pasmo por tal conformismo ter vindo de alguém que respondeu a alguns processos justo por ir contra a mesmice ostensiva.

    O que sei é que há intelectuais valentes desses últimos anos, os quais leio e percebo ainda serem pouco influentes entre os universitários daqui: Said, Hannah Arendt, Allan Bloom, Judt, Adorno, Norberto Elias... que condenam o especifismo (sic), a medianização do intelectual. Claro que Idelber é o cara, inteligente, etc. Mas se se limita a falar apenas ao vulgo que achará fantástico tudo que ele escreve, é por que já sucumbiu ao grande mal emburrecedor da bajulação. Não há muita coisa defensiva em Lula, em Dilma, ou em Serra, para que a mente esclarecida não veja atitudes incomunicáveis como o do Idelber como leviana, fanatizada e apiedante

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Ah... Não sei se passei uma imagem generalizada contra professores. Adoraria conhecer pessoalmente o Farinatti, o Ramiro, assim como tenho grandes amigos professores de universidade. Mas vc sabe a que tipo me referi no comentário duplicado acima (não sei como retirar o ouro, merda de analfabetismo digital!), tendo sido estudante também.

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  5. Não sei como tirar o OUTRO, queria dizer acima. (Havia postado o mesmo comentário duas vezes.)

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  6. Charlles, elaborei um comentário com mais de 4000 caracteres. A conta do Google não deixa eu publicar. Então fica difícil...

    Tentei publicar como anônimo. Não consegui...

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  7. Ramiro, corta o comentário em partes e vai publicando (fiquei 4000 vezes curiosa).

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  8. Ramiro, divida seu mega-comentário em 3 ou 4 partes e publique-as em sequencia...

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  9. Vou fazer uma fezinha no jogo do bicho. A mesma sugestão, exatamente ao mesmo tempo... milhar na cabeça! :-D

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  10. O ROSTO DA DEMOCRACIA
    by Ramiro Conceição

    Charlles, creio que você, neste post, se equivocou um pouco. O que está acontecendo no Brasil neste instante? Sem qualquer sombra de dúvida: o povo brasileiro quer, DEMOCRATICAMENTE, a continuidade do governo Lula. Todavia, a oposição (a direita) não aceita. E, Charlles, existe, sim, esquerda e direita.
    Outra coisa. Comparar o regime de Stalin com o governo Lula é uma inconsistência histórica. As críticas, por exemplo, de Camus e de Reich, contra o regime stalinista foram historicamente lúcidas!
    Não há mais qualquer dúvida de que Stalin foi um feroz ditador, no mesmo nível histórico de Hitler. Sem qualquer hesitação: Stalin nunca foi um defensor do socialismo. Stalin construiu uma nova sociedade de classes dentro da ex-União Soviética. A nova classe dominante, daqueles idos, foi a elite do partido comunista. Stalin ASSASSINOU toda e qualquer voz dissidente ao seu regime. Por isso o socialismo real ruiu em todas as repúblicas satélites do regime soviético. Analise, Charlles, todos os lideres que foram depostos, na ex-cortina de ferro, após 1989. Todos, sem exceção, foram sanguinários ditadores.
    (...)

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  11. (...)

    E o governo Lula? Primeira coisa: foi DEMOCRATICAMENTE eleito. Segunda coisa: o dito mensalão do PT é um câncer no corpo da política brasileira que deve ser extirpado por uma profunda reforma política que, no fundo, a oposição não deseja, pois concretamente a impediria de ter acesso ao poder no Brasil. Por isso que ela não acontece…
    Todos os partidos praticaram o mensalão de uma forma ou de outra, principalmente, esses da atual oposição (não se deve esquecer a putaria histórica que ocorreu quando da re-eleição de FHC, no Congresso ). Não se deve esquecer da manipulação econômica feita, por toda a camarilha de FHC, para manter o Real equiparado ao Dólar até a re-eleição ser finalizada.
    Outra coisa importante, Charlles: não se deve esquecer também que o PT foi punido; e muito bem punido!!, pois José Dirceu estaria hoje, certamente, no lugar da Dilma.
    Porém a oposição não se satisfez. Por quê? O que interessava, e interessa, é a cabeça histórica do Lula a qualquer custo!. Eles sabem que, enquanto Lula existir politicamente, não terão a menor chance de voltar ao poder no Brasil.

    (...)

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  12. (...)

    Mas será efetivamente que é o Lula que eles tanto temem? Não! O verdadeiro temor deles é o ROSTO DA DEMOCRACIA que se mostrou ao mundo, pela primeira, vez em 2002.
    Dando continuidade ao processo histórico da queda do muro de Berlin, a eleição de Lula foi, é e será lembrada como parte do início do processo de transição do capitalismo, moribundo, ao SOCIALISMO DEMOCRÁTICO que virá!
    Daí da importância, no Brasil, da candidatura verde de Marina. A nova oposição nascerá daí; e ainda bem! Deve ser sempre fomentado o respirar sadio de idéias contrárias ao poder estabelecido. Tal processo é uma lei vital à continuidade da vida. Não deve ser temida mas, ao contrário, até as últimas conseqüências, defendida.
    Votarei em Dilma. Porém se tal governo for catastrófico, não tenho qualquer dúvida que estarei na nova oposição.
    Na nova política mundial não se deve temer a transição do poder para uma nova proposta, naquele momento histórico, mais competente! Não se sabe tudo! Não se acerta tudo!
    Chegou o tempo, amado Charlles, que a cooperação é muito superior a competição. No primeiro degrau da evolução animal, realmente, a competição prevaleceu durante bilhões de anos.
    Porém agora, nós, este processo complexo, ditos seres humanos, somos, e não sabemos o porquê, a consciência da vida; portanto, neste novo patamar da evolução vital em que nos encontramos, devemos defender o direito à continuidade da vida dos mais fracos; pois é da fraqueza que nasce a fortaleza cósmica gerada na explosão, durante a morte duma estrela…


    Não é mais possível pensar imediatamente… Devemos ensinar as nossas crianças a pensar-sentir em décadas! E chegará o tempo em que pensaremos em séculos…
    Portanto, caro Charlles, compreendo a postura do Idelber como UM BALUARTE À CONTINUIDADE DA DEMOCRACIA neste mundo.

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  13. (...)

    Está a acabar o tempo da política de fuxicos; o tempo das pseudoculturas de bulas filosóficas; o tempo da política dos currais; o tempo da filantropia como ganho objetivo; o tempo das religiões de bordéis; o tempo dos oligopólios da informação; o tempo de um bando de vagabundos a mamar nas tetas do trabalho de povos inteiros.
    É, amado Charlles, vem chegando o tempo da CARTA DA TERRA em que Deus será revelado em sua Glória – pela bíblia cantada dos bem-te-vis!

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  14. Ramiro, escrevi agora uma longa réplica e a internet caiu e tudo foi para aquele lugar. Então, um resumo do comentário falecido: não comparei Stalin a Lula, seria uma estupidez tamanha da minha parte. O que citei foi a malemolência do intelectual acadêmico brasileiro em adotar uma posição partidária irracional e conivente. Nada contra a maledicência e a ironia raivosa. Millõr Fernandes destruia com classe (e sem classe) o José Sarney, entre as tantas coisas históricas que disse contra o geriártrica foi sobre sua literatura, afirmando que era obra de um altista. Walter Lippman e H.L. Menckel fazia os políticos de suas épocas tremerem ao abrir suas colunas nos jornais. Agora o estilo redutivo do Idelber é no pior "joga a bosta na Geni, ela dá pra qualquer um". A sátira corrosiva deve oferece catarse. Quando Mailer escreveu que por detrás do olhar de Nixon se escondiam mil ardis demonìacos, isso antes do Waltergate e durante o cimo de alta aceitação popular de Nixon, o leitor, o cidadão silencioso e participativo, reconhecia-se no texto, pois intimamente sabia que não estava certo que na festa se produzisse tanto lixo inconsequente. A sátira é dirigida à porção de excluído que todo mundo tem, para que se identifique com a voz surpreendentemente na contra- mão da unanimidade aceita.

    Por não ser poeta (o que me beneficia numa visão pessimista da realidade política brasileira)

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  15. não vejo com a mesma fé o SOCIALISMO DEMOCRÁTICO brasileiro. Isso aí é para quem se deixa acreditar nas cifras relativas que colocam esse país como nono ou oitavo em desenvolvimento. É verdade que houve uma grande melhora de alcance de consumo para todas as classes, mas, se o brasileiro assalariado hoje pode comer bife de vaca todo dia, e financia um carro, isso nos remete desde a Collor (no tocante à abertura de mercado), ao inevitável FHC, e a manutenção dessas conquistas e assimilação ao andamento do capitalismo global que o Lula fez. Mas... e as melhoras REAIS? O Brasil é o SEGUNDO DO MUNDO em diferença de distribuição de renda, o SEGUNDO DO MUNDO na lista dos piores em educação pública, um dos PIORES em sistema de saúde, tem uma posição africana também quanto a inépcia e discriminação de um judiciário mannipulado por panelinhas. Eu dei aula durante 6 anos para pagar livros e xerox na faculdade federal, no ensino público, e SEI MUITO BEM o crime que se comete ali, todos os dias, contra professores e alunos, nunca vai produzir a mais distante consciência do SOCIALISMO DEMOCRÁTICO. As empresas purgam déficits no setor de transporte por que a malha rodoviária brasileira tem mais de 80 % em situação precária. Diante o fórum de minha cidade, amontoam-se filas, todas as terças feiras, de pessoas esperando uma eficiência que não vem do MP. O Brasil colorido, com gente sorrindo de felicidade consumista, possui essas cifras, claro, porque abriu as portas para as multinacionais (o que não tenho nada contra), mas diante a falência do Estado, a ingerência e corrupção, o que há por debaixo dessas cifras é o controle das megacorporações, dos bancos e sindicatos de faixada.

    Vem descontado, todo mês, em meu salário, 344 reais e 23 centavos destinados a um fundo nacional de sindicato. Liguei para o telefone de Brasília atrás de informações sobre os benefícios e direitos que isso me daria,mas não obtive nada além de desconversa e não-sei-bem-para-que-é. Há dois meses, cortei prufundamente a mão durante o trabalho, e tive que ir ser suturado pelo SUS. Já havia estado lá antes. Essa experiência pretendo contar num texto futuro, pois é cômica e brutal, tanta gente esperando, o médico sarcático, os gritos de dor de uma mulher diante a manipulação de seu braço quebrado. Se quer conhecer o Brasil, vá lá no SUS, vá para as cidades pequenas, onde se pode ver o Brasil reproduzido sintomáticamente no microcosmo.

    O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO, meu caro e muito querido Ramiro, não existe por aqui. Estamos longe da Alemanha, da escandinávia, da França. Há algumas semanas peguei um ônibus para Goiânia, e ouvi o lamento de alguns funcionário da SuperFrango. Uma jovem com uma filha no colo, sentada ao meu lado, dizendo que recebe 600 reais, mas não está aguentando mais: trabalha sob uma temperatura de 17 graus, durante 12 horas, sem pagamento de horas extras. Onde está a intervenção do governo socialista de esquerda do Lula, quanto a essa situação que se espalha pelo Brasil? As empresas e bancos dominam tudo, desde a ponta de meu nariz até a linha mais distante do horizonte.

    Minha menção aos intelectuais denunciadores do socialismo soviético foi como exemplo de pensadores reacionários, que mesmo nessa marolinha bestalizada que temos por aqui não encontro muitos dispostos a fazer uma reflexão crítica. Se digo que Dilma e Serra é um só, é porque nesse SOCIALISMO DEMOCRÁTICO que seu coração de poeta acredita, Lula e sarney são um só, Lula e Iris Rezende. Para o SOCIALISMO DEMOCRÁTICO, haveria de se ter a mesmo força utópica no campo moral. Serra, se ganhasse, faria a mesma coisa que Dilma fará: o seguimento na inércia da onda; apenas favoreceria outros times dos dito "burgueses capitalistas", outros que não os da mesma laia que a sucessora do Lula beneficiará.

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  16. Ramiro, no mais, gostei de seu comentário e sei que jamais (ainda bem) concordaremos nesse assunto, o que gera o debate saudável. Desculpe se tem algum, o mais minúsculo e espontâneo, tom agressivo na réplica acima.

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  17. Este comentário foi removido pelo autor.

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  19. Caminhante, só para quebrar esse clima impróprio para o final de semana, e retornar-mos á trivialidade que interessa: só hoje vi o seu comentário sobre exame de próstata no blog do Milton (no texto sobre o "Arco-iris da Gravidade"). Como sempre, hilária. Gostei demais de sua defesa do exame de toque retal nos homens como forma de compensação ao martírio dos exames corriqueiros das mulheres. Esse exame do sangue eu já sabia. Mas avise ao seu marido que _ sério mesmo _ muitos médicos aconselham, por precaução, que se faça aquele outro...ai,ai...

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  20. Charlles, nem eu tinha visto aquele comentário. Na época não apareceu, reescrevi várias vezes, até que desisti e me queixei com o Milton via MSN.

    Saudoso exame de próstata do Milton. Foi a primeira vez que fui parar lá, porque recomendaram o texto no twitter. Achei engraçado, li as postagens anteriores, as posterios, fui ficando...

    Sobre a necessidade de fazer os dois exames: eu já tinha ouvido do meu orientador; não que tenhamos esse grau de intimidade, ele é que falou disso espontaneamente, numa reunião. Mas o Luiz não liga para o teu comentário ou o meu e foi taxativo. "Não. Nós cremos na ciência!" Ou seja...

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  21. Concordo em partes com o texto. acho que não há mal em certa paixão política e certa "catarse", como disse, na hora de mostrar para as mesmas laias que ficam no poder que as coisas estão mudando, a teta secando.

    Não conhecia o blog, nem O, Idelber, e visitando o site vi que realmente ele peca pelo exagero. Ao menos nos últimos post é pura propaganda política, chega mesmo a reproduzir vídeo com o discurso da Dilma no palanque. Eu voto na Dilma, mas: + comedimento.

    Gostei muito do comentário rabo de foguete do Ramiro. Que mal há ver esse país precisado e sofrido com um pouco da adstringência da poesia?

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  22. Mas vem cá, o Idelber é gaúcho ou mineiro?

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  23. Rivair, estava sem tempo e em trânsito...

    Nada melhor do que uma oposição respeitosa e incisiva de ideias. Acabei não resistindo ao ver que um dos comentaristas do último post do Idelber (adivinha sobre o que?) criticou a campanha eleitoral feita lá, e postei um pequeno comentário de concordância com o subversivo, indicando, de quebra, esse meu post. Segundo as estatísticas, esse post recebeu 67 visualizações de ontem para hoje, sendo a origem de tráfego vinda lá do Biscoito Fino. E teve comentarista lá que concordou comigo.

    É pena a perda de qualidade de um site que, por muito tempo, mostrou uma excelência exemplar. A coisa por lá parece estar num nível de fanatismo belicoso tão descontrolado, que a resposta do Idelber ao subversivo reclamão que citei acima, foi o de lhe perguntar se havia um blog do Serra com tamanho quantidade de acesso, e logo depois rematou com a suspeita de que, talvez, o subversivo fosse a favor do pessoal de O Globo. Ou seja, o blogueiro não conseguiu ver na crítica, nada mais que um ataque intencionado contra sua candidata, valha-me Deus. E, para coroar a cena de adeptos de uma seita fechada à espera da ordem do suicídio conjunto para se encontrarem com Deus na nave espacial, uma comentarista escreveu que Dilma era "a melhor mulher do mundo". Nem minha mãe o é.

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  24. SOBRE O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO
    by Ramiro Conceição

    Charlles, concordo com o que você descreveu sobre o atendimento à saúde, ainda muito precário, em nosso país.
    Mas, por outro lado, aqui, no ES, quando necessitamos de postos de saúde, pelo menos na cidade de Vitória, o atendimento sempre foi de razoável para bom. O que para mim confesso, Charlles, foi uma grata surpresa.
    O acompanhamento pelo município (isto é, prefeitura do PT) do processo de vacinação de meu filho tem sido algo de se tirar o chapéu. Creio que duas vezes, no decorrer do ano, funcionários da saúde compareceram em minha casa para checar se meu filho fora vacinado e se tudo houvera transcorrido dentro da normalidade durante os programas oficiais de vacinação.
    Outra coisa também surpreendente. O programa de combate à dengue, pelo menos na cidade de Vitória, prefeitura do PT tem sido também de razoável para bom. Fiscais fazem visitas nas residências com o objetivo de eliminação de focos e distribuição de panfletos educativos à prevenção da terrível doença.
    Por outro lado, também é verdade que os principais jornais capixabas denunciam falhas no atendimento à população em regiões mais pobres do estado. A maioria das denúncias trata da falta de profissionais ao atendimento da população (principalmente de médicos) e, também, trata da falta de leitos para os casos de emergência. Ou seja, a questão da saúde é complexa e não está resolvida por aqui, como também no restante do nosso querido Brasil, Charlles.
    (…)

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  25. (…)
    Bem Charlles, agora escreverei sobre o que conheço mais, no ES - a educação profissional.
    Como você bem sabe, sou professor-pesquisador do Ifes (Instituto Federal do ES). Pois bem, lhe asseguro que o governo Lula, em oito anos de gestão, fez pela educação mais que os 510 anos desse nosso Brasil.
    Eis as principais ações realizadas pelo governo federal na área de educação capixaba, principalmente, nos últimos quatro anos: i) ampliação da rede federal de educação PARA TODAS AS PRINCIPAIS REGIÕES CAPIXABAS; ii) o número de doutores contratados em todas as áreas foi colossal; não tenho, neste instante, o número para o estado inteiro, mas na Coordenação de Metalurgia, da qual faço parte, no Campus de Vitória: 10 doutores foram contratados; iii) além disso, os professores mais antigos estão sendo incentivados aos seus respectivos mestrados e doutorados que, obviamente, terão um incentivo salarial mas, principalmente, um salto de qualidade em seus respectivos cursos ministrados; iv) outra coisa, ministramos, no Ifes, cursos verticais, isto é, por exemplo, sou professor do curso técnico, do curso de engenharia e da pós-graduação em metalurgia, ou seja, em muito breve futuro, técnicos, engenheiros, mestres e doutores formar-se-ão integralmente no Instituto; tal fato é, simplesmente, revolucionário!; v) outro coisa importante, o Ifes não faz concorrência à Ufes (Universidade Federal do ES), que desenvolve competentemente seus cursos em outras áreas de interesse do estado.
    (…)

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  26. (...)

    Charlles, o curso de redução que leciono pode ser equiparado àqueles das tradicionais universidades brasileiras. Muito em breve, nossos laboratórios estarão totalmente montados (ao nível das universidades do dito primeiro mundo). Detalhe: o curso de engenharia metalúrgica formará, em Dezembro de 2010, a primeira turma; a partir de Março de 2011, começaram as primeiras defesas de mestrado em metalurgia do Instituto; o nosso curso de pós-gradução passará pela primeira avaliação da Capes, em 2011. Ou seja, Charlles, tudo é muito, mas muito novo, e tudo se deve sem sombra de dúvida à atuação magistral do governo Lula. Tal fato é efetivamente histórico.
    Vou lhe dar um dado estarrecedor: cheguei ao ES, em Abril de 2006, pois bem, acredite se quiser: até aquela data, NUNCA, pelo estado, um engenheiro metalurgista fora formado em solo capixaba (os engenheiros metalurgistas sempre foram recrutados em outras unidades da federação (Minas, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul).
    Outro detalhe, o ES, em seu parque industrial, desenvolveu sempre colossais atividades minero-metalúrgicas - aqui se encontra a Companhia Vale, ex- Companhia Vale do Rio Doce que a camarilha de FHC privatizou mesmo sendo uma empresa lucrativa!!!!!!!; aqui se encontra a Samarco mineração; aqui se encontra a ex-CST (Companhia Siderúrgica de Tubarão, que foi privatizada na era Collor) hoje ArcellorMittal uma empresa multinacional.
    (…)

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  27. (…)
    Há problemas? É claro que sim! Um dos principais é a ruptura de velhos paradigmas junto a alguns funcionários do Instituto. A quebra de uma postura terceiro-mundista, anacrônica, adquirida por décadas de um funcionalismo subserviente ao poder instituído - aquela falta de visão estratégica do ensino a longo prazo, pois durante décadas o imediatismo político foi o ator principal no teatro da educação em nosso país. Sem sombra de dúvida que, em função dos resquícios da ditadura, da nova república, da era Collor, e, principalmente, dos tempos de FHC, muita gente está em cargos de decisão sem a devida competência para exercê-los. Portanto, ainda há muito que fazer.
    Quando ao SOCIALISMO DEMOCRÁTICO, Charlles, penso-sinto que não há mais saída para um mundo essencialmente capitalista. A última grande crise que estamos a viver é a prova cabal de tal argumentação. O mercado não é auto-regulador, pois é constituído por seres que, essencialmente, são individualistas, orgulhosos, invejosos, inseguros, traiçoeiros, covardes, em pouquíssimas palavras: um bando de potenciais filhos-da-puta colossais quando diante do poder (por isso que, no fundo, somos todos irmãos!!).
    Desta maneira creio que, quanto mais democrática for a disputa pelo poder, mais nos aproximaremos do que denomino de socialismo democrático, isto é, o desenvolvimento teórico e prático em um processo dialético, evolutivo, de questões fundamentais ao processo vital em nosso planeta: i) salário; trabalho; educação; segurança; lazer; liberdades individuais; opção sexual; racismo; dogmatismo religioso; desenvolvimento sustentável etc.
    Há pouco descobrimos com surpresa, e muita briga, que a Terra não é a parte fundamental do Universo. Assim, talvez, uma das pétalas fundamentais da flor humana seja compreender, também, a nossa humildade cósmica.

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  28. Errata:
    onde se lê: a partir de Março de 2011, começaram as primeiras defesas de mestrado...

    leia-se: a partir de Março de 2011 COMEÇARÃO...

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  29. Uma questão de esclarecimento:

    Sou professor do curso de REDUÇÃO DE MINÉRIOS DE FERRO.Sou um professor de pirometalurgia.

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  30. Fico feliz que seja assim, Ramiro. Sobre a situação das faculdades no ES não conhecia. Quando fazia veterinária, numa faculdade federal, na época do FHC, apesar das ameaças constantes do terror da privatização, os professores e a infraestrutura da instituição estavam vivendo um de seus melhores períodos. Foi oferecido o doutorado gratuito para todos os professores. Eles atulhavam salas da biblioteca, o que era gozado ver, todos aqueles senhores desacostumados a estarem do lado de lá da sala, sentados silenciosamente em suas carteiras. Assim que me formei, foi montado uma clínica ultramoderna para cirurgias em grandes animais, na Escola de Veterinária. E a biblioteca do campus, de quatro andares, sempre recebia boas remessas de livros atualizados. Confesso que nesses assuntos, estou por fora, mas, pela experiência, creio que os governos sempre trataram bem faculdades federais.

    Em oposição, a UEG, maior universidade, em termos quantitativos, da América Latina, é bastante precária. Salários baixíssimos, professores desqualificados, falta de concursos suficientes. Onde fiz História, praticamente me formei sozinho, tirando um ou dois professores realmente bons, o resto era resultado de nepotismo e cabides de emprego. Lamentável. Trata-se da Universidade Estadual de Goiás.

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  31. Existe vida inteligente na blogosfera! Estou feliz por ter encontrado esse blog.

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  32. Charlles Campos,

    A conversa parece que agora vai começar lá na caixa de comentários do Biscoito.

    Luiz

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  33. Grato, Sandro!

    Luiz, postei lá minha contribuição, e nada mais a falar,até o dia do Advento, sobre politi-cágem brasileira.

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