sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Direito Compulsório ao meu Voto Facultativo

Apesar de bom poeta, Bertolt Brecth é responsável por ter estragado toda uma geração de jovens politizados brasileiros. Seu poema "O Analfabeto Político", lido em salas de aula de colégios, escolas e universidades, nos anos 80, serviu a incutir a certeza de que a falta de esclarecimento político era um crime mais grave que bater na mãe com o fio do telefone. Os oráculos da suspeição de que o cotidiano, após mais de vinte anos de voto popular interrompido pela ditadura militar, não podia ser entendido sem um filtro partidário, ativamente engajado na palavra da ordem mudança!, eram os velhos professores de História e Sociologia.Estes formavam uma frente armada com todo o arsenal maçônico de entendedores especialistas no pensamento marxista-leninista, com o olhar dos que reobtiveram o direito à voz postados combativamete sobre os professores da extinta Moral e Cívica e demais propagandiações do mal da mente emudecida. 

Quem da minha idade, que na referida época estava nos bancos do ensino médio, não tremia de medo quando o professor emprestava sua raiva pessoal à leitura daqueles versos condenatórios, nos quais toda prostituta e toda criança famélica passavam pela culpa da negligência do Analfabeto Político? Nos pátios de recreio, as ofensas iam até o limite das dúvidas da masculinidade alheia, ou da força física; dizer, ou insinuar, que determinado colega era um Alienado Político, era estabelecer uma cisão séria para toda a vida. Quem queria ser apontado, em sua incógnita cadeira sob a qual estavam guardados os livros da Nova História Critica Brasileira, como responsável direto pelas moças de família obrigadas a se lançarem na sarjeta, e pelo grande índice de mortalidade infantil no nordeste?

Por alguma simplificação doutrinária, vinda tanto das esquerdas quanto das direitas, ficou combinado que o Esclarecimento Político, em oposição a Alienação Política, era representado pelo VOTO. O VOTO definia a mudança! , era a pragmatização do que os professores de longas barbas grisalhas e jeitão descolado de hippie que não se importava com etiquetas, exigiam ver no modus operandi de seus alunos, antes que desaparecessem na obsolescência de antigos excêntricos do passado. Facilitou para identificar onde se instalava a culpa do Analfabeto Político: não era não terem lido o Manifesto, ou não gostarem o suficiente de Bretch, ou não terem participado da passeata dos caras pintadas. O pecado, única e exclusivamente, era NÃO VOTAR. Na liturgia da politização dos anos 80 e 90 em diante, não votar era como o fiel azarado que sente escorrer na boca o sangue da hóstia mordida, ou o gosto da vingança espiritual caindo sobre si após tomar o gole da cachaça deixada em veneração na encruzilhada. Que alívio saber que uma cédula ordinariamente preenchida e depositada na urna tinha o poder adstringente de recolher as mulheres das esquinas e fazer com elas o caminho inverso de substituir-lhes os shorts provocativos, os vícios e maquiagem borrada, pelas  roupas certas correspondentes a seus novos cargos de diplomadas universitárias.

Essa mentalidade, isenta de questionamento, como tudo no Brasil, serve bem aos poderes instituídos. Procurem algum fórum de debate na internet sobre o voto facultativo. Nos raros debates televisivos com qualidade maior que a reinação onipresente dos descarados interesses por detrás da capitalização pessoal dos profissionais da imprensa, eu mesmo nunca vi algum convidado enunciar a hipótese da mudança na lei eleitoral brasileira, para que se comporte o voto facultativo. Numa charge no blog da Rachel Nunes, um entrevistado por um dos institutos de pesquisa de voto se depara com essa absurda pergunta, que é o diagnóstico de nosso acabrestamento de eleitores obrigados: Se os candidatos em quem o senhor tivesse que votar fossem estes, para qual país o senhor se mudaria? O problema é que o brasileiro padrão não tem como fazer essa proeza expurgatória de se exilar temporariamente em outro país até que passem as eleições.  

 Para nós, resta o acompanhamento eufemizado, sob a plenipotência da democracia, de nosso direito de votar. A mídia corporativa adora mostrar, religiosamente, nos anos de urnas, os velhinhos octogenário desterrados de seus retiros domésticos, no instante de sua redencionista trajetória até a zona eleitoral para realizarem seu direito de votar. As ternas gengivas peladas no sorriso mártir exemplificante de, livres pela idade da incumbência do voto, ainda se aterem a seus deveres de patriotas. E como no Brasil, TODA a mídia é corporativa, não faltam as propagandas e folders animados de poéticas revitalizações da consciência da IMPORTÂNCIA DO VOTO. Atores da Globo, charmosas mulheres negras com vozes aveludadas, adolescentes com uniformes escolares, moradores de reservas indígenas, líderes de igrejas pentecostais, expoentes de esportes radicais, heróis do futebol e da música, cada um inocentemente  e com as mais santas das intenções, coincidindo a um nicho social, racial, religioso, etário, comportamental, cultural.

O herói da vez agora é o marqueteiro Ben Self e sua empresa de propaganda especializada em campanhas políticas, Blue State Digital. Contratado pelo PT para eleger a Dilma Roussef, comprovando sua eficiência de convencimento de ter levado 47% dos eleitores norte-americanos a votarem, no ano que elegeu Barack Obama presidente, seu trabalho no Brasil não exigirá muita dificudade. Seu prodígio maior, talvez, foi o de fazer com que quase metade dos eleitores americanos votassem (com maior incidência de negros). Num país como o nosso, as opções entre o francamente medíocre e o estarrecedoramente inepto, que assolam os postos de candidatura a todos os cargos pleiteáveis, da presidência, passando pelos governos estaduais, até o congresso e senado, desenham um cenário catastrófico.

Em Goiás, a CELG, companhia estatal fornecedora de luz para todo o estado, purga um rombo de 6 bilhões de reais. Convém repetir: uma empresa governamental, de um estado de segundo plano no panorama econômico e político brasileiro, está efetivamente quebrada, com uma dívida de SEIS BILHÕES DE REAIS. Tomando-se a fortuna do homem mais rico do país, Eike Batista, uma empresa que não possui inadimplência, nem concorrência, e uma quantidade de fregueses pagantes absoluta, deve o correspondente a mais que 12% do que está nas contas do bilhionário. Uma espoliação dessa envergadura só pode ser conseguida por anos de perita e concentrada organização criminosa, fielmente convicta da impunidade. Só nessa semana, na cidade onde moro, faltou luz por quatro vezes, um apagão total, que não demora menos que quatro horas cada para que a luz se restabeleça. E os mesmos nomes aparecem como candidatos ao governo, os mesmos patriarcas eleitos desde há vinte anos, com os mesmos jingles roubados de baíões e músicas de axé (começa-se por aí), na estratégia de chegarem à linguagem e gosto do povo.

Por dez anos já não voto. Mudei-me para cá e nunca transferi meu título. Exerço compulsóriamente meu direito ao voto facultativo, indo à zona (que nome obviamente mais apropriado) só para justificar minha ausência. Pena que esse termo, justificar, não seja literal, não me dando a chance de expressar formalmente meus infinitos motivos para voltar as costas ao palavreado bretchtiniano. Um dos diretores da concessionária arranjada para suprir metade da roubalheira da CELG definiu muito bem a base de minha razão fundamental. Ele disse, feliz e radiante diante as câmeras de tv: o que passou, passou. Não podemos ficar atrás desse ou de outro culpado. Vamos contornar o problema, e seguir em frente.

É o que eu faço, contorno o problema do voto, e sigo em frente.

4 comentários:

  1. http://www.sul21.com.br/index.php/permalink/opiniao/1295

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  2. Estou a me sentir menos solitário após ler o artigo mencionado.

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  3. Você esqueceu de mencionar as orgulhosas reportagens que mostram o esforço para levar as urnas para lugares insuspeitos, como aldeias, casas sobre palafitas, lugares onde nem a chuva alcança. Tudo para as pessoas honrarem seu dever cívico. E pra quê, pra votar em quem?

    Sempre achei o voto facultativo muito mais justo. E que é muito simplista falar - "Os políticos roubam, aprovam leis péssimas e legislam em causa própria PORQUE VOCÊ VOTOU MAL". Como se fosse tudo uma questão de colocar lá alguém de bom ou mau coração.

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  4. Me esqueci disso. Outra coisa significativa, é que, com o voto facultativo, acho que diminuiria até a má qualidade das propagandas. Isento de votar, o cidadão esclarecido exigiria que os candidatos REALMENTE o convencesse.

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