quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Inotorrinolaringologissimamente

Um amigo, que tem uma filha de um ano e meio, abomina a linguagem do cute-cute. O negócio de afinar a voz para se falar com um ser humano de cinquenta  centímetros, que pesa menos de dez quilos e está dezessete anos distante de poder tirar a carteira de motorista, é algo francamente indigno à inteligência da espécie. "Esse é um dos costumes mais aterrorizantes que herdamos dos antepassados; pais irresponsáveis acabam por tratar seus filhos como se eles fossem verdadeiros idiotas,com essa coisa de aiai, que fofurinha! O nenêm vai tomá papinha! Ahhh,...que caquinha mais cheirosa! O nenêm gosta de gute-gute, hein?", ele diz,embora eu, sendo um confesso adepto do crime do cuteguês, nunca cheguei a extremos de achar a caquinha cheirosa (argh! Isso não).

Sua tática de respeitar a inteligência do seu pequeno representante de homo-sapiens em formação social_ou, em linguagem menos técnica, a sua filha Helen_, já surte os primeiros efeitos visíveis. Quando os visitamos, nesse último fim de semana, fomos atendidos à porta por uma mulher em miniatura, com um sóbrio vestido rosa e desprovida de qualquer outro artifício da vaidade que não fosse uma útil frauda impermeável por debaixo. A Helen ainda não fala, mas o gesto que fez ao nos convidar a entrar foi suficientemente eloquente para sabermos que seu progenitor encontrava-se na sala. Ao nos receber, esse meu amigo agradeceu à Helen com um muito solícito "obrigado por ter aberto o portão, agora venha se sentar no sofá ao lado das visitas", ao que a distinta senhora cumpriu a ordem, pondo-se a nos olhar com uma espécie de fervor concentrado afim de não deixar passar as mínimas informações educacionais.

Esse amigo, então, pois-se  a  nos falar sobre seu formidável projeto da Câmara Isobárica. Trata-se de uma simples instalação com as paredes externas revestidas de aço e o interior com proteção acústica de isopor, tendo uma cadeira em miniatura no centro e duas potentes caixas de som nos cantos das paredes. Daí , como um publicitário diante os representantes da empresa contratante, meu amigo passou do enunciado para uma prática expositiva de sua ideia revolucionária; em silêncio e comandando as sombrançelhas para que ficássem numa linearidade severa, coisa que, mesmo não fazendo parte de suas intenções pedagógicas, conferia aos olhos algo da velhacaria de um mágico de turbante oriental, ordenou à Helen que pegasse um tamburete ao lado do sofá e viesse se sentar no centro da sala.

O semblante de prestedigitador oriental parecia surtir um efeito impactante na menina, pois num instante ela ficara ainda mais tensa. Minha esposa, que até aquele momento se limitara a, de cinco em cinco segundos, me lançar um olhar espantado, não resistiu ao ver a modelo da apresentação prontamente postada em seu local de ensaio. "Que coisinha mais fooofa, geeeente!" Se não fosse minha presença de espírito e o grau de intimidade que aguirí com esse amigo, o acidente já estaria feito. Apalpei o joelho da Dani, deixei que minhas sobrancelhas se enrijecessem para mostrar a quem eu levava a sério naquela empreitada. Fingindo ignorar aquele gesto espontâneo das forças da dissolução, ele retirou do bolso das calças uma folha A4 com uma série de palavras impressas, pôs-se de pé diante a filha e, num tom marcial e monocórdio, desfilou uma a uma a coleção de palavras escritas no papel: singularidade, onomatopéia, proscratinação, corpúsculos de Negri, aventar, supinação, hebdomadário, menoscabar, hermenêutica, sátrapa, pederasta, concuspicência, calepigeano, falanstério, xilografura, cordata.

E assim foi...A cada palavra, vale dizer, após ser pronunciada pausadamente, era seguida de um olhar de mago das mil e uma noites para uma Helen estarrecida. Depois de uma imensa e cansativa meia-hora nessa demonstração, ele concluiu a experiência com um ar satisfeito. Imagine, Charlles, ele disse, com a voz estóica dos grandes inventores que tem um longo caminho à frente para percorrer, a pessoa instalada diariamente em sua câmara isobárica, sendo torpedeada por uma série da palavras inteligentes, nada desse mamãe e papai, palavras que se refiram integralmente às coisas, não au-au, mas cachorro, não vruuuum, mas motocicleta, não papá, mas fazer a ceia, não dandá-pra-ganhá-tem-tem, mas fazer um jogging pelas intermediações do quarteirão. O quanto os filhos ficarão mais inteligentes, não negligenciando de dar a eles o tratamente adequado a seres com o raciocínio em formação.

E, enquanto falava, excitado, me levou à cozinha, pegou duas xícaras do armário e nos serviu um café morno, distraído que estava de tudo que não fosse a sua descoberta libertária. Ergueu a mão, interrompendo-se, lembrando naquele momento de algo inadiável, correu até um dos quartos da sala e voltou com uma artifício nas mãos ainda mais arabesco: uma boneca antiga e quase toda esfarrapada. Segure-a e aperte-lhe a barriga, me ordenou. Pensei com certo alívio que ao menos essa concessão ele havia dado a Helen, mas assim que apertei firme com o polegar a barriga do brinquedo, percebi a trama. Havia um gravadorzinho interno que, acionado, á maneira das bonecas que falam "Eu te amo", "Sou sua melhor amiga", ou "Vamos brincar", uma voz afeminada indisfarçavelmente forçada desse meu amigo, dizia: "Ao adentrarmos no buraco-negro, provavelmente nos depararemos com algo a que os cientistas chamam singularidade". Aperte de novo, me pediu com mais singeleza esse inenarrável amigo. A próxima frase era: "Os iguais tratados igualmente; os desiguais desigualmente."

Para mim já bastava. Entreguei-lhe a boneca, apressadamente, inventando algum compromisso que já não me recordo, voltei á sala e peguei minha esposa pelas mãos. Fingi ainda um último sorriso de aprovação, mais para manter meu desespero escondido, e voltamos para casa.


Dois dias depois o telefone toca e do outro lado da linha, o meu amigo.


_ Algo estranhíssimo aconteceu!_ falou, francamente exultante._ A Helen disse suas primeiras sílabas!


_ Meu Deus, sério?_ respondi, por um momento esquecendo o momento traumático._ Qual foi?


_Ainda não sei. Ela disse a sílaba "Le". Estou em dúvida se corresponde a "leptópedo", ou "leprechau".


Depois de despedirmos diante tamanha radiãncia e felicidade, me dou pela lembrança de um cena fugidia que não reparei bem ao retirar minha esposa daquela casa. De madrugada, impossibilitado de dormir, pensando que talvez eu era um tanto pouco ortodoxo com meu filho, perguntei á Dani o que ela achava da possível primeira palavra da Helen. Ela pensou bem uns cinco minutos, e riu afundando-se dengosamente no travesseiro.


_Ela estava dizendo seu diminutivo_ disse.


_Não entendi.


_"He-LE-ni-nha". Foi como a chamei ao pegá-la no colo e lhe cobrir de beijos, quando os dois estavam na cozinha. Ela aceitou o mimo com uma carinha espantada, como que pediu licença com as mãozinhas, e foi para o quarto. Estava dizendo o próprio nome.

14 comentários:

  1. Quem sabe tenha sido a única demonstração de afeto espontaneo que essa menina receberá em muito tempo. Me lembrou aquelas meninas de filme de terror. Pobre criança.

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  2. Olá, vim seguindo o link do seu post pela Caminhante no Twitter.
    Há muito tempo não via algo tão real e tão triste. Dava um bom roteiro de filme, mesmo. Que cara sem noção!

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  3. Esse meu amigo realmente existe, assim como sua filhinha Helen. E aqui vale minha determinação em manter esse blog em segredo, vedado seu conhecimento aos meus amigos diretos. Acontece comigo o que você, Fernanda, tão bem definiu num de seus post: o estranhismo das pessoas de seu dia-a-dia ao verem que você é alguém que pensa além do trivial, e tem a audácia de colocar isso por escrito na web. Algumas pessoas veriam nisso o equivalente a serem fotografadas nuas no banheiro, e as fotos postadas no youtube.

    (Lembro de uma colega do curso de veterinária, a qual por cinco anos nunca tinha lhe falado mais que alguns cumprimentos necessários. Depois de formados, fomos trabalhar juntos numa pesquisa à campo de peste suína. Ela me confessou, após uma semana de trabalho: sempre te achei um alienado, um quase hippie, com seu jeitão desleixado, sua atitude de nunca estar nem aí. Nunca te dei muito valor, mesmo. Quando um amigo em comum_ ela continuava_ me disse que você era um dos caras que ele conhecia mais entendido em música, eu fiquei chocada.)

    A parte da boneca, foi liberdade ficcional minha. Mas as palavras proparoxítonas, sua frieza escritorial para com a filha, é pura verdade. Também o é a cisma que ele tem quando vê minha esposa. A Dani não está nem aí, pega a Helen e faz uma festa com ela. A menina suspira quando vamos embora. Sua mãe_ aí entra a parte realmente séria_ é separada do pai, e pouco se importa pela filha_ daí a deficiência no falar. Ele luta na justiça para ter a guarda da filha. Talvez, de um modo excêntrico, seja um bom pai.

    Lija, seja bem vinda. Eu não poderia ficar mais satisfeito pelo caminho a que você pôde visitar esse blog.

    Abraços.

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  4. http://www.sul21.com.br/index.php/permalink/opiniao/1424

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  5. Uma psicóloga uma vez me disse que não era incomum psicólogos tentarem fabricar um filho superdotado. Começam a estimular e usar todas as técnicas com eles desde cedo. Minha sogra era professora primária, e vejo que ela também usou dos conhecimentos dela pra fazer a neta se sobressair. A menina ficava treinando caligrafia em casa enquanto as outras crianças nem sabiam o alfabeto. Teu amigo resolveu ser mais preciso e abraçou de todas as maneiras esse projeto. O problema desse e de qualquer outro projeto que se faz em cima dos filhos é como lidar quando eles decepcionarem. E só será bom se eles decepcionarem.

    Acaba aqui tudo o que me sinto capaz de falar sobre esse assunto. Posso falar apenas como filha e não como mãe. Por isso me dou menos liberdade de dizer o que é certo ou errado sobre esse assunto. Reconheço que é mesmo difícil saber o que é certo e errado na hora de criar outro ser humano.

    Eu era totalmente persona non grata no curso de sociologia. Já me ofereceram algumas explicações pra isso, mas foram totalmente sem sentido perto do que eu vivi. Foi um verdadeiro bulling. Eu não usava camiseta do Che, detestava o movimento estudantil e era boa aluna, ou seja, tudo ao contrário de quem quer provar que é contra o sistema.

    Aprendi a ter uma atitude contrária: sempre que alguém é mais calado, no canto, não dá bola pra ninguém, penso que ali tem uma pessoa interessante. Acho que nunca me frustrei.

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  6. Caminhante, já não caio nessa de moldar um super-homem. Há muitos livros em minha casa, o que, já vi claramente, faz bem à criança. Antes de ser pai, me via pensando mesmo nesses projetos fúteis de dar o melhor para meu filho, do ponto de vista intelectual. Mas quando vi aquela rãnzinha desprotegida que todos nós somos, no berço, fui dominado pelo Piegismo Supremo: só o amor, única e exclusivamente, o amor. Tá ouvindo os violinos ao fundo?

    Fui excentrico à minha maneira e muito solitariamente, sem nem me dar por isso. Meu grande privilégio é que desde sempre me dou muito bem comigo mesmo.

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  7. Milton, vi lá a postagem. Obrigado mais uma vez, amigo!

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  8. Eu também sou adepto do cuteguês com meu filhote Isaac, de 1,5 primaveras.

    Perguntas que não querem calar:

    1)Porque todas as crases apareceram no post ao contrário?
    2)Porque o sinal de travessão não está de maneira correta(já havia notado tal fato, nos seus comentários no blog do Milton)?

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  9. Ramiro, meu caro. Isso vai ser tema de um post. Poderia antecipar aqui, mas vc conhece minha verborragia irritante. Mas não se preocupe, nada susceptível a ser retirado assim tão facilmente pelo pastro evangélico. Garanto-lhe que meu demônio é firme e insubmisso, e não me deixa por nada (graças a Deus!)

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  10. Correção (tô pegando esse seu preciosismo): pelo PASTOR, não pastro.

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  11. Pois é, querido Charlles, até o momento, do Bom Pastor que passou por aqui, há mais de 2000 anos, fizeram apenas que nos tornássemos colossais pastranos…

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  12. Meu irmão mais velho e minha cunhada, professora primária desde sempre e mais tarde especializada em educação especial, também foram radicalmente contrários ao cute-cute na criação de seus três filhos. Nada como o caso extremado do seu amigo; muito amor, carinho, cuidados, afeto, mas nenhum cute-cute. A conversa com os filhos, desde o primeiro dia de vida, sempre foram com as palavras corretas e frases completas. O resultado foi que cresceram como quaisquer outras crianças, alegres, inteligentes, confiantes, traquinas, algazarrentas, mas com uma pequena - e ao mesmo tempo descomunal - diferença: desde pequeninhos, falando as palavras corretamente, com sentido perfeito em frases bem construidas.

    A meu ver, o aspecto mais importante no modelo de educação familiar que escolheram foi que nunca esqueceram que seus filhos, antes de qualquer outra coisa, eram crianças, e não deixaram faltar à eles o que toda criança precisa ter para crescer saudável, e feliz!

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  13. Corrigindo: "A conversa com os filhos, desde o primeiro dia de vida, sempre FOI..."

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  14. Colafina, me fez lembrar de algo sobre diferença de pedagogia ocidental e oriental, do livro "A Era do Inconcebível", do Joshua Cooper Ramo. As crianças orientais testadas numa experiência acadêmica, demonstraram conseguir ter uma percepção e aprendizado mais abrangente do que as ocidentais; mostravam capacidade de cognição panorâmica, subjetiva, enquanto as ocidentais se firmavam mais ao detalhe, à apreensão circunscrita ao que imediatamente interessava. Segundo a conclusão dos pesquisadores, isso estava relacionado à forma de comunicação dos pais com os filhos. Os chineses se comunicam mais através de verbos com as crianças (no estilo: posso te dar esse cavalinho, se você me der em troca essa bola), o que aumenta consideravelmente uma maior interação linguística. Nós temos a tradição de mantermos os primeiros comunicados com os filhos limitados aos substantivos ( o cachorrinho, o tio e a tia). Fato que dá o que pensar.

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